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Larissa Caramaschi

Pós-diagnóstico em adultos

Contar à família de origem que você é autista, na vida adulta

Esta leitura acompanha o adulto autista nível 1 recém-diagnosticado que pondera contar o laudo a pais idosos, irmãos, tios e parentes próximos. Não é uma única conversa, são várias, com tempos diferentes, com pessoas diferentes. E uma decisão clínica precede todas elas: separar contar para informar de contar para pedir validação que a família muitas vezes não tem como dar.

A cena mais comum, no consultório, é a de uma adulta na casa dos quarenta, recém-diagnosticada com autismo nível 1 de suporte, contando que tomou coragem e mostrou o laudo para a mãe num almoço de domingo, e ouviu de volta uma frase que parecia gentil e que se transformou, ao longo da semana seguinte, numa pequena ferida lenta. A frase variava entre algumas versões previsíveis. Filha, você sempre foi um pouco tímida, é normal. Você não é autista, autista é o filho da minha amiga que não fala. Hoje em dia tudo vira diagnóstico. Quando você era pequena você era a mais inteligente da turma, isso não pode ser. A mãe, em geral, dizia isso com afeto, sem intenção declarada de invalidar, com a sensação até de estar tranquilizando a filha. E a filha saía do almoço com uma sensação difícil de nomear, uma mistura de alívio porque a conversa não terminou em conflito aberto e de luto silencioso porque acabou de perceber, com clareza, que esse alívio veio ao preço da invisibilidade do próprio reconhecimento.

Essa cena guarda a primeira lição clínica deste texto. A família de origem, em quase todos os casos de diagnóstico tardio, não está pronta para receber a informação na mesma temperatura emocional em que a pessoa diagnosticada está. Não porque a família seja má ou rejeite o vínculo. É que o reconhecimento do autismo da filha adulta carrega, para a mãe, para o pai, para os irmãos mais velhos, uma reescrita silenciosa de toda uma história educativa, com perguntas que nem sempre eles vão se permitir formular. Será que eu não vi? Será que eu deveria ter percebido? Será que a vida dela teria sido diferente se eu tivesse buscado avaliação aos sete anos? Será que eu mesmo sou? Essas perguntas, quando aparecem, costumam aparecer em silêncio, e o silêncio se traveste de negação. A negação, vista de fora, parece desinteresse. Vista de dentro, é defesa.

O que o histórico familiar quase sempre mostra

Quando o assunto entra na sessão, uma das primeiras perguntas clínicas é sobre a árvore. Pais, irmãos, tios, primos, avós quando ainda estão presentes. Bargiela, Steward e Mandy mostraram, em pesquisa de 2016 publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders sobre mulheres diagnosticadas tardiamente, que uma proporção alta dessas mulheres descreve, em retrospectiva, traços autistas em pelo menos um familiar de primeiro grau, em geral pai, irmão ou primo do lado paterno (Bargiela, Steward e Mandy, 2016, doi:10.1007/s10803-016-2872-8). Esse padrão não é uma certeza biológica nem autoriza diagnóstico à distância. É um indicador clínico que ajuda a pessoa recém-diagnosticada a se localizar dentro de uma história familiar maior, em que o autismo provavelmente esteve presente em outras gerações sob nomes diferentes. O tio que sempre foi excêntrico. O pai que detesta jantares de família. O primo do lado materno que vive em outra cidade e nunca casou. A avó que tinha rotinas rígidas e era considerada difícil.

Esse mapeamento serve a duas funções clínicas. A primeira é deslocar a sensação, comum no recém-diagnosticado, de ser uma anomalia dentro da própria família. A segunda é dar repertório para a conversa eventual com a mãe ou com o pai, em que se pode situar o laudo dentro de uma história familiar mais ampla e menos isolada. Essa segunda função, importante por si, exige um cuidado. Não vale apresentar o histórico familiar à mãe ou ao pai como acusação. Não vale dizer agora eu entendi que meu pai também era. Esse tipo de frase, sobretudo quando o pai está vivo, costuma fechar a conversa antes de ela começar. Vale, em vez disso, mencionar o histórico como contexto pessoal de quem fala, do tipo eu venho percebendo, ao reler nossa história, que algumas pessoas da família têm um jeito parecido com o meu, e o laudo me ajudou a nomear isso. A diferença entre as duas formulações é sutil e protetiva.

Vale registrar, também, que muitos pais e mães da geração que tem hoje entre sessenta e oitenta anos cresceram em um contexto cultural em que a palavra autismo era estritamente associada a quadros de alto suporte, com pouca ou nenhuma fala. Para essa geração, dizer que a filha adulta funcional, casada, com carreira, é autista, soa contraditório com tudo o que aprenderam. Não se trata de ignorância malformada. É um descompasso geracional real, que precisa ser respeitado no ritmo da conversa. A literatura especializada sobre adultos autistas e diagnóstico tardio entrou na agenda pública brasileira de forma sustentada apenas nos últimos dez anos. É razoável que os pais demorem semanas, meses, às vezes anos para incorporar uma reorganização conceitual que a filha levou a vida inteira para chegar.

A mãe que sempre disse "você era só tímida"

Há um caso clínico que merece um espaço próprio porque aparece com regularidade impressionante. É o caso da mulher adulta autista que, na infância, foi descrita pela mãe como tímida, como reservada, como aquela que preferia ler a brincar, como a que ficava no canto em festas de aniversário. Essa narrativa materna, repetida ao longo de décadas, fez parte da identidade que a filha construiu sobre si. Quando o laudo chega, na vida adulta, e a filha começa a perceber que aquilo que sempre foi nomeado como timidez era uma combinação específica de sobrecarga sensorial, dificuldade de leitura social implícita e estratégias de camuflagem precoce, ela se vê precisando renegociar não só a própria identidade mas também a narrativa que a mãe contou sobre ela a vida toda.

Kanfiszer, Davies e Collins descreveram, em estudo qualitativo publicado em 2017 na revista Autism, exatamente esse fenômeno entre mulheres adultas autistas diagnosticadas tardiamente, em que a narrativa familiar de timidez e introversão funcionou durante anos como um anteparo socialmente aceitável para a invisibilização do autismo (Kanfiszer, Davies e Collins, 2017, doi:10.1177/1362361316687987). O ponto sensível dessa renegociação é que ela toca, indiretamente, na autoria materna da história. Quando a filha diz que não era timidez, era autismo, a mãe pode escutar isso como acusação. Pode ouvir você se enganou comigo durante quarenta anos, mesmo quando a filha não está dizendo isso. E pode responder com defesa, com minimização, com tentativa de manter a narrativa original. Essa defesa não é maldade. É a tentativa de uma mãe idosa de proteger o sentido de uma vida inteira de cuidado.

A recomendação clínica, neste caso particular, é não exigir que a mãe abandone a narrativa antiga em uma única conversa. Vale, em vez disso, propor uma convivência das duas narrativas. A filha era, sim, tímida no sentido em que a mãe a descrevia. E também era autista, no sentido que o laudo agora explica. Uma coisa não invalida a outra. Esse reframe, que parece simples, costuma destravar a conversa porque devolve à mãe a legitimidade da percepção que ela teve da filha, sem pedir a ela que reescreva a história. Em alguns casos, depois de meses, a própria mãe começa a recontar essa história com mais matizes, sem que ninguém precisasse arrancar dela uma admissão imediata. Em outros casos, a mãe segue na narrativa antiga, e a filha precisa aceitar que essa parte da reescrita não vai vir do lado de fora. Para esse cenário específico, vale a leitura sobre a carta para a mãe do adulto autista.

Quando contar e quando não contar

A decisão sobre contar à família de origem precisa ser pensada caso a caso, e a primeira pergunta clínica que se faz, em sessão, é uma pergunta de função. Para que contar. Se a resposta envolve dar à família a oportunidade de entender certas decisões que a pessoa vai tomar daqui em diante, como menos visitas em eventos sociais grandes, ajustes em jantares de família, ou recusa a determinados compromissos, contar tende a fazer sentido. Se a resposta é principalmente buscar uma validação histórica, do tipo eu quero que minha mãe reconheça agora que eu sempre tive razão, contar pode ser uma decisão difícil de sustentar emocionalmente, porque a família raramente entrega essa validação no ritmo e na intensidade esperados. Esse é o desencontro que Crane e colaboradoras descreveram em estudo publicado em 2018 no Journal of Autism and Developmental Disorders sobre a experiência adulta do diagnóstico, em que as expectativas de reconhecimento social pós-laudo costumam ser bem maiores do que o reconhecimento que de fato chega (Crane et al., 2018, doi:10.1007/s10803-018-3639-1).

Vale também pensar caso a caso, dentro da família. Nem todos os parentes precisam saber. Em geral, faz sentido contar primeiro aos pais ou ao parente que tem proximidade afetiva e capacidade emocional para absorver. Depois aos irmãos, quando a relação é estável o suficiente. Tios, primos e parentes distantes raramente precisam ser informados, e quando são informados sem necessidade prática, abrem espaço para comentários que tendem a desgastar a pessoa recém-diagnosticada sem contrapartida. Em famílias com histórico de comentários invasivos, fofoca interna ou hostilidade velada, a recomendação clínica costuma ser de contenção da informação, não por vergonha do diagnóstico mas por proteção do próprio espaço identitário em formação.

Há casos em que a recomendação é mais decidida no sentido de não contar. Quando o pai ou a mãe tem histórico longo de hostilidade emocional, comentários depreciativos sistemáticos sobre traços que hoje se reconhecem como autistas, ou padrões de abuso. Nesses casos, entregar o laudo costuma ser entregar munição para uma narrativa que vai usar a informação contra a pessoa. O laudo, em qualquer cenário, é da pessoa diagnosticada, e ela tem o direito clínico de decidir quem entra na conversa. Esse direito vale mesmo quando produz um custo emocional, e ele vale especialmente nas famílias em que a tendência cultural é ainda de informar todo mundo sobre tudo. Para uma leitura mais ampla sobre essa releitura da própria história, vale ver a trilha sobre releitura biográfica pós-diagnóstico.

Sobre os irmãos, vale uma palavra própria, porque eles ocupam um lugar particular na rede familiar. Os irmãos são as testemunhas da infância em condição de relativa horizontalidade, viram cenas que os pais não viam, partilharam quartos, recreios escolares, jantares de família. Quando o laudo aparece na vida adulta, frequentemente é o irmão ou a irmã quem reage com a menor surpresa, e essa reação tende a ser, ao mesmo tempo, alívio para a pessoa diagnosticada e fonte de raiva contida, porque levanta a pergunta inevitável: se você sabia, por que nunca disse nada. Essa pergunta, quase nunca formulada em voz alta, costuma se transformar em silêncio pesado durante alguns meses, até que o vínculo entre os irmãos encontre uma nova forma de se ler. Na conversa com o irmão ou a irmã, faz sentido reconhecer explicitamente que ninguém na geração de vocês tinha vocabulário para nomear aquilo, e que a percepção de diferença que ele ou ela teve na infância foi uma percepção legítima que esbarrou no limite cultural da época. Esse reconhecimento dispensa o irmão de uma culpa retroativa que ele talvez nem soubesse que estava carregando.

Vale também pensar nos rituais familiares, que são onde a convivência se materializa. Festas de aniversário, almoços de domingo, viagens em família no fim de ano, casamentos de primos, velórios. Esses eventos costumam concentrar carga sensorial alta, sobreposição de conversas, expectativa social pesada e nenhum lugar para descomprimir. Em alguns casos, depois que o laudo chega e a família é informada, a pessoa recém-diagnosticada pode renegociar a forma como participa desses rituais, propondo presença mais curta, chegada em horários alternativos, recusa explícita a brincadeiras que envolvem ser o centro das atenções. Em outros casos, a família não aceita bem essas renegociações e a presença passa a ser objeto de comentário recorrente. Vale antecipar esse cenário na sessão, decidir com calma quanto custo de tensão familiar a pessoa quer absorver, e lembrar que mudar o jeito de participar de eventos familiares depois de quarenta anos exige paciência tanto da pessoa quanto da família.

Por fim, é preciso falar do tempo. A conversa com a família de origem raramente acontece em um único momento, raramente termina com uma resposta clara, e raramente produz reconhecimento imediato. O que costuma acontecer, quando a conversa é conduzida com cuidado e sem expectativa de validação total, é um lento processo de reacomodação ao longo de meses ou anos, em que a mãe começa a citar o autismo da filha de forma cada vez mais natural, em que o pai começa a perguntar sobre a sobrecarga sensorial antes de propor um programa em família, em que os irmãos começam a respeitar limites que antes desconsideravam por hábito. Essa reacomodação não vem de uma frase certa dita em uma única conversa. Vem da continuidade de muitas conversas pequenas, em que a pessoa recém-diagnosticada repete, com paciência, o vocabulário novo e dá à família o tempo que a família precisa para se reorganizar. Esse tempo, em geral, é mais lento do que a pessoa diagnosticada gostaria. E é exatamente esse descompasso de ritmo que precisa ser nomeado em terapia, para que ele não se transforme em ferida cumulativa.

Há um cuidado clínico final que vale ser explicitado, porque ele é recorrente e quase nunca antecipado. Em algumas famílias, depois que o laudo entra na conversa, começa a aparecer, por parte de um ou outro parente, uma curiosidade pessoal sobre a possibilidade de também ser autista. Em geral é um irmão mais velho que sempre se reconheceu como diferente, um pai que se descobre menos sociável do que sempre disse ser, uma tia que vinha pensando sobre isso em silêncio. Essa abertura é, ao mesmo tempo, um sinal de elaboração madura da família e uma situação que precisa ser acolhida com discrição. Não cabe à pessoa recém-diagnosticada virar referência interna de avaliação para parentes adultos. O que cabe é dizer com gentileza que o caminho que ela está fazendo envolveu avaliação especializada, que recomenda que cada pessoa que se reconhece nesse mapa busque sua própria avaliação, e que a relação familiar não precisa carregar o trabalho de tradução clínica que tem outro lugar. Esse cuidado evita que a pessoa diagnosticada se transforme, no interior da família, em uma espécie de profissional informal, papel que costuma ser exaustivo e que mistura vínculos que precisam ficar separados.

Vale também lembrar que algumas famílias, simplesmente, não vão se reorganizar. Em casos em que a estrutura familiar é rigidamente hierárquica, em que a figura materna ou paterna ocupa um lugar de autoridade pouco questionável, em que conflitos abertos são evitados a todo custo, a entrega do laudo pode resultar em um silêncio prolongado, em uma mudança de assunto quando o tema aparece, em uma forma educada de fingir que a conversa nunca aconteceu. Esse silêncio é doloroso, e precisa ser elaborado em terapia individual sem expectativa de que a família vá oferecer o reconhecimento que a pessoa esperava. Em alguns desses casos, o trabalho clínico passa pela aceitação de que a validação identitária vai vir de outros lugares, de relações construídas na vida adulta, de grupos de pares, de comunidades autistas, de leituras, de espaços profissionais especializados, e que isso não diminui a legitimidade do reconhecimento próprio. A família continua sendo família, com seus afetos preservados, mas deixa de ser a fonte primária de validação. Essa reorganização interna, embora dolorida no início, costuma trazer com o tempo um descanso que muitas pessoas relatam não ter sentido em décadas.

Uma nota sobre o que esta leitura não autoriza

Esta leitura é orientação clínica geral e não substitui o trabalho terapêutico individual sobre a história familiar. Em famílias com histórico de violência intrafamiliar, abuso sexual ou negligência grave na infância da pessoa recém-diagnosticada, a decisão sobre disclosure familiar entra em outro registro, que prevê primeiro a proteção emocional e às vezes jurídica da pessoa, antes de qualquer conversa identitária. Em casos em que os pais já têm idade avançada e quadros cognitivos importantes, o cuidado ético também muda: contar pode produzir mais sofrimento do que esclarecimento, e a decisão precisa ponderar isso. Para colega de consultório acompanhando esse tipo de caso, vale aprofundar a leitura em os protocolos de sessão da área profissional do portal.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

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