Ir para o conteúdo principal
Pular para o conteúdo
Larissa Caramaschi

Paternidade autista adulta

Pai autista presente de outro jeito

Marcos tem 47 anos, é engenheiro civil, foi diagnosticado aos 44. Helena, a filha, tem 16, está terminando o segundo ano do ensino médio e em algum momento dos últimos dois anos parou de achar que o pai era distante. Não foi conversa única, foi descoberta lenta. Helena percebeu que o pai sempre lembrava do que importava para ela, na ordem em que importava, e que o problema nunca tinha sido falta de atenção. Era outra gramática de afeto, que ela não havia aprendido a ler. A esposa de Marcos, Beatriz, ainda está aprendendo. Este texto é sobre o que a literatura, escassa, descreve sobre pais autistas, e sobre o que se vê com regularidade em consultório quando a família começa a fazer essa tradução no tempo dela.

Lacuna de literatura

O que a literatura sobre pais autistas conta, e o que ela ainda não conta

A pesquisa sobre adultos autistas em papéis parentais cresceu nos últimos cinco anos, sobretudo a partir do recorte sobre maternidade. Sobre paternidade, o material publicado é desproporcionalmente menor. Stenning e colegas, em estudo qualitativo de 2024 publicado na Autism in Adulthood, registram que pais autistas estão sub-representados em pesquisa, em parte pelo estigma associado a procurar diagnóstico e em parte pela menor adesão a participar de entrevista estruturada. Davys e colegas, em texto de 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders, chegam a conclusão parecida e apontam o vazio quase total de literatura sobre paternidade ativa no puerpério e cuidado noturno.

Hwang e colegas, em 2024, ao revisar literatura sobre homens autistas adultos em papéis familiares, observa que a maior parte do que se escreve sobre pais autistas é, na verdade, sobre cônjuges de mulheres autistas, ou sobre filhos adultos de pais possivelmente no espectro sem diagnóstico formal. Estudo específico sobre pai autista nível 1 com diagnóstico confirmado, de meia idade, com filhos adolescentes ou adultos, é raro [FALTA EVIDÊNCIA para descrever padrões populacionais brasileiros com confiança]. O consultório, neste momento, sabe mais do que a literatura formal sabe, e é dessa observação clínica que parte boa do que segue aqui foi composto.

Gramática de afeto

Presença sem o vocabulário esperado

O que o consultório vê com frequência é um padrão recorrente. O pai autista costuma estar presente de modo regular, previsível e operacional, com gramática própria de afeto que a família neurotípica em geral não foi ensinada a ler. Ele aparece levando a filha à escola, lembrando do material que precisa para a prova, sabendo de cor o cronograma do semestre, e tendo dificuldade considerável em puxar a conversa afetiva de duas frases que a esposa esperaria depois do jantar. A esposa, em queixa que aparece em quase toda primeira sessão, descreve isso como ausência emocional. O filho, em geral, descreve a mesma cena como pai presente que não fala tanto.

Pellicano e colegas, na revisão de 2024 sobre autismo ao longo do ciclo de vida, descrevem que homens autistas adultos tendem a expressar afeto em registros mais instrumentais e menos verbais expansivos, e que essa diferença de registro produz mal-entendido previsível em relações de longa duração. Não é ausência de afeto, é afeto que se exprime em outro canal. Em consultório com casal, a frase clínica que mais altera o clima é nomear esse descompasso. Beatriz esperava determinada gramática, Marcos opera em outra. Nenhum dos dois está errado, os dois estão traduzindo mal um sistema para o outro.

O filho pequeno e o filho que cresce

Pequenas conversas, primeira infância e a virada da adolescência

Pais autistas relatam, com regularidade que extrapola o tamanho da amostra dos estudos disponíveis, dificuldade específica nas pequenas conversas com crianças muito pequenas. O fluxo associativo da fala da criança de três anos, com mudança de assunto a cada quinze segundos, é exigente em modo de processamento que difere do que muitos adultos autistas usam de modo fluente. Brincar de faz de conta livre, sem regra clara, pode ser cansativo. Davys, em 2025, descreve que essa fase do cuidado é a que mais aparece como ponto de tensão entre pai autista e esposa neurotípica, sobretudo quando a divisão cultural do cuidado pressupõe que o pai vai conduzir tempo de brincadeira em registro improvisado.

A virada costuma vir com a adolescência. Quando o filho ou a filha começa a conversar em registro mais concreto, com temas mais delimitados, com interesse em algum assunto identificável, a conversa com o pai autista frequentemente cresce em qualidade. Helena, em dado momento dos quatorze anos, começou a estudar estrutura de pontes para um trabalho da escola. Marcos sabia muito sobre estrutura de pontes. A conversa de uma hora, sentados na mesa da sala com cadernos abertos, alterou a relação entre os dois de modo duradouro. A literatura ainda não descreve esse padrão com método, mas a observação clínica brasileira o reconhece em famílias muito diferentes entre si.

Vale dizer, com cuidado para não generalizar, que o pai autista que durante anos pareceu ausente para a esposa frequentemente é o pai que o filho adolescente identifica primeiro como presente. Não porque a esposa esteja errada. Porque a esposa, em vida adulta compartilhada, espera registro afetivo que o filho adolescente, em vida em formação, ainda não espera do mesmo modo.

A esposa neurotípica

Quando a esposa diz que falta presença emocional

A queixa da esposa neurotípica costuma ser legítima. Não funciona reduzi-la a desentendimento que se resolve com explicação sobre neurodivergência. A esposa frequentemente carregou anos de pequenas ausências em pequenas conversas que somam um cansaço real. Reconhecer essa carga é movimento clínico importante, e que não se cumpre em uma sessão. A terapia de casal nesse arranjo trabalha em dupla frente. De um lado, dá nome à gramática do marido, para que a esposa pare de interpretar comportamento previsível como desinteresse. De outro lado, ajuda o marido a desenvolver gestos de presença que funcionam dentro da gramática dele, e não em imitação de gramática neurotípica que ele nunca vai sustentar por décadas sem se exaurir.

Para o pai autista, é trabalho identificar quais gestos de cuidado funcionam para a esposa e cabem na própria gramática. Lembrar de aniversário com antecedência. Trazer a comida favorita no fim de semana sem ocasião. Reservar tempo para conversa estruturada de quinze minutos, no horário fixo, sobre como cada um está. Cada um desses gestos é previsível, concreto e sustentável em longo prazo, três adjetivos que descrevem bem o tipo de afeto que muitos pais autistas adultos relatam praticar com mais facilidade.

Notas para quem atende

Notas para a psicóloga de família

Em terapia de família com pai autista adulto, três cuidados ajudam a sessão a render. O primeiro é evitar formulação que coloque o pai como peça defeituosa do sistema. Frases como ele só precisa se esforçar mais, ou ele tem que aprender a ser afetivo, infantilizam um adulto que provavelmente já se esforçou demais ao longo da vida e que costuma ter histórico de tentativas frustradas de imitar gramática que não é a dele. O segundo é trabalhar com vocabulário concreto, traduzindo as queixas em comportamentos observáveis e em pedidos exequíveis, em vez de operar em abstração afetiva. O terceiro é dar espaço, sem pressa, para que a esposa neurotípica processe o luto da expectativa que ela tinha, e que demorou para entender que não era realista no formato que ela imaginava.

Quando o filho está em sessão de família, vale ouvir o que ele descreve da relação com o pai antes de presumir interpretação. Em famílias com pai autista, o filho adolescente costuma ter visão mais precisa do que a literatura sugere, e nomeia padrões que a terapia pode usar como ponto de apoio. Stenning, em 2024, sugere algo nessa direção, embora a amostra ainda seja pequena e o desenho qualitativo. O caso brasileiro carece de pesquisa específica, e consultório atento ao tema acumula material que poderia, no futuro próximo, virar produção acadêmica original.

Sobre o que ainda não se sabe

O que ainda falta entender sobre paternidade autista

A literatura disponível tem três lacunas que merecem honestidade. A primeira é demográfica. Os estudos existentes recrutam, em maioria, homens brancos, escolarizados, diagnosticados tardiamente, em países de língua inglesa. A segunda é etária. Quase nada cobre o pai autista nos primeiros três anos do filho, que é provavelmente a fase mais difícil. A terceira é cultural. O Brasil tem dinâmica familiar diferente da dinâmica britânica ou estadunidense, e o que se transporta dessas literaturas precisa ser usado com ressalva [FALTA EVIDÊNCIA brasileira específica em boa parte do que se afirma].

Em consultório, ainda assim, o que se vê com regularidade é que pais autistas adultos podem ser, e em geral são, pais presentes, atentos e duradouros, dentro de uma gramática que precisa ser traduzida para o resto da família e que se beneficia consideravelmente quando a tradução começa cedo. Quando a tradução começa tarde, como começou na casa de Marcos e Beatriz, ainda é tempo. O ganho aparece.

Para continuar a leitura

Para continuar a leitura

O conceito que costuma destravar a conversa em casa é o de tradução relacional. Para a esposa neurotípica que está cansada de tentar interpretar o que está acontecendo, o texto sobre cônjuge neurotípico em exaustão endereça diretamente a queixa. Para entender por que combinar o que parece óbvio funciona melhor do que esperar que se entenda no ar, vale o texto sobre contratos explícitos.