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Larissa Caramaschi

Área profissional · A-PRO · Subhub

Protocolos de sessão, três roteiros clínicos de referência

Esta página apresenta os três protocolos clínicos de referência usados na prática deste portal, descritos em formato técnico para colegas que atendem adultos autistas nível 1 de suporte e casais neurodivergentes. Não são receitas universais, são roteiros organizados em torno de literatura primária identificada, com critérios de aplicabilidade nomeados e bandeiras vermelhas explícitas. Cada protocolo presume formação clínica regular do colega e operação dentro do escopo do CFP.

A descrição abaixo cobre público, estrutura por sessão, referências primárias e bandeiras vermelhas para encaminhamento de retorno. O material clínico completo de cada protocolo — fichas, scripts de devolutiva, tabelas de monitoramento, está em /materiais/protocolos/, em fase de revisão para abertura na fase 2 do portal, mediante validação manual de CRP/CRM. Encaminhamentos entre colegas seguem o Código de Ética Profissional do Psicólogo, sem split de honorários e sem captação.

Catálogo de referência

Três protocolos, três trilhas, três configurações clínicas

Cada protocolo mapeia uma caminho clínico do portal, T2 pós-diagnóstico, D1 casal neurodivergente, T3 terapia individual adaptada, e responde a um cenário clínico repetido em primeira consulta. A literatura primária está identificada em cada peça. Bandeiras vermelhas estão nomeadas explicitamente; quando aparecem, a leitura responsável é renegociar enquadre ou encaminhar.

Protocolo de adaptação pós-diagnóstico

As primeiras doze semanas após o laudo em adulto autista nível 1

Público de referência

Paciente adulto autista nível 1 nas primeiras dez a dezesseis semanas após o diagnóstico formal, com ou sem comorbidade depressiva já tratada.

Resumo clínico

O recém-diagnosticado costuma chegar ao consultório oscilando entre alívio e luto. O protocolo estrutura a reorganização biográfica em fases nomeadas, psicoeducação clínica, revisão narrativa, redistribuição de carga social, contratualização explícita com o entorno —, evitando que a sessão se converta em exposição teórica do diagnóstico sem trabalho fenomenológico paralelo.

Estrutura por fase

  1. Semanas 1-2: vocabulário (nível 1 de suporte, masking, sobrecarga, fadiga social) substituindo termos importados de manuais pediátricos.
  2. Semanas 3-4: revisão biográfica em três eixos, relacional, ocupacional, sensorial —, com instrumento de timeline anotada.
  3. Semanas 5-6: mapeamento da carga social residual (compromissos automáticos que não foram revistos após o laudo).
  4. Semanas 7-8: negociação explícita de adaptações razoáveis no trabalho, na família e no casal.
  5. Semanas 9-10: trabalho de luto biográfico, a vida que foi e a vida que poderia ter sido sob outro vocabulário.
  6. Semanas 11-12: revisão de metas e definição do horizonte de médio prazo do acompanhamento.

Referências primárias

  • Crane, L. et al. (2018), Autistic adults' experiences of receiving and using an autism diagnosis. J Autism Dev Disord, 48(11), 3584-3599.
  • Lai, M. C. & Baron-Cohen, S. (2015), Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. Lancet Psychiatry, 2(11), 1013-1027.
  • Botha, M., Dibb, B. & Frost, D. M. (2022), "Autism is me": autistic individuals making sense of autism and stigma. Disability & Society, 37(3), 427-453.

Bandeiras vermelhas

  • Quadro depressivo maior não-estabilizado farmacologicamente, encaminhar para psiquiatria antes de iniciar a revisão biográfica.
  • Ideação suicida ativa, protocolo de risco precede o protocolo de adaptação, sem exceção.
  • Comorbidade com TDAH adulto não-tratada, pode contraindicar a velocidade de referência das doze semanas; renegociar ritmo.

Protocolo de atendimento ao casal neurodivergente

Quatro pilares articulados em configurações autista-NT, autista-autista e mistas

Público de referência

Casais em que ao menos um cônjuge é adulto autista nível 1, em configuração autista-neurotípico, autista-autista ou com TDAH adulto coexistente. Sessões conjuntas ou alternadas.

Resumo clínico

O método articula quatro pilares clínicos em ordem variável conforme a queixa de entrada: tradução relacional, mapa sensorial do casal, contratos explícitos e reparação pós-conflito. O protocolo é gradiente, não receita. A literatura da dupla empatia (Milton, 2012; Crompton et al., 2020) sustenta a recusa de leitura "uma parte doente" e a opção por linguagem de tradução entre dois sistemas que processam diferente.

Estrutura por fase

  1. Sessão 1: avaliação da queixa de entrada e mapeamento da configuração (autista-NT, autista-autista, TDAH-autista) sem fechar prematuramente.
  2. Sessões 2-4: tradução relacional, ensinar cada cônjuge a operar com a gramática do outro sem patologizá-la.
  3. Sessões 5-6: mapa sensorial do casal, exercício clínico de referência em sete domínios do Sensory Profile (Dunn, 2014).
  4. Sessões 7-9: contratos explícitos, renegociação consciente do que outros casais negociam por convenção implícita.
  5. Sessões 10-12: protocolo de reparação pós-conflito, descompressão, reencontro de baixa intensidade, conversa estruturada, registro do aprendizado.
  6. Sessão 13+: ciclos de manutenção e revisão a cada três meses, com material clínico atualizado pelo casal entre sessões.

Referências primárias

  • Milton, D. E. M. (2012), On the ontological status of autism: the double empathy problem. Disability & Society, 27(6), 883-887.
  • Crompton, C. J. et al. (2020), Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective. Autism, 24(7), 1704-1712.
  • Christensen, A., Doss, B. D. & Jacobson, N. S. (2014), Reconcilable Differences (2nd ed.). Guilford Press.
  • Carter, B. & McGoldrick, M. (2016), The Expanding Family Life Cycle (5th ed.). Pearson.

Bandeiras vermelhas

  • Violência conjugal ativa, protocolo de segurança precede qualquer trabalho de tradução relacional.
  • Configuração em que apenas um cônjuge demanda a terapia para "consertar" o outro, primeira sessão de psicoeducação de referência antes da decisão de seguir.
  • Coabitação financeira com dependência absoluta, fragiliza contratos explícitos; integrar avaliação de viabilidade prática.

Protocolo de manejo de meltdown em consultório

Como o terapeuta sustenta a sessão quando a sobrecarga atravessa o setting

Público de referência

Profissionais em sessão individual ou de casal em que o paciente adulto autista nível 1 entra em meltdown ou shutdown sensoriomotor durante o atendimento, presencial ou online.

Resumo clínico

Meltdown e shutdown não são "crises emocionais comuns", são respostas neurobiológicas a sobrecarga sustentada que excedeu o limite metabólico de regulação. Tratá-las com o repertório clínico padrão (interpretação, confronto, escuta empática prolongada) costuma piorar o quadro. O protocolo nomeia os sinais precoces, define o que o terapeuta faz (e o que não faz) na janela aguda, e estrutura o reencontro depois.

Estrutura por fase

  1. Fase 1, leitura de sinais precoces (alteração de voz, retraimento postural, latência crescente de resposta, foco visual deslocado).
  2. Fase 2, redução estrutural de estímulos: diminuir luminosidade, falar mais baixo, encurtar frases, abrir silêncio operacional.
  3. Fase 3, pergunta direta com opção binária ("Você precisa de pausa de cinco minutos?") em vez de pergunta aberta.
  4. Fase 4, janela aguda: o terapeuta sustenta presença regulada, sem demanda interacional. Não interpreta, não interroga, não consola verbalmente.
  5. Fase 5, reencontro de baixa intensidade ao fim da janela, com nomeação técnica do que aconteceu ("meltdown sensoriomotor", não "ataque de pânico").
  6. Fase 6, análise conjunta na sessão seguinte: gatilhos, custos, ajustes do setting clínico, eventual revisão da duração ou frequência da sessão.

Referências primárias

  • Raymaker, D. M. et al. (2020), Having all of your internal resources exhausted: defining autistic burnout. Autism in Adulthood, 2(2), 132-143.
  • Dunn, W. (2014), Sensory Profile 2: User's Manual. Pearson.
  • Lai, M. C. et al. (2020), Evidence-based support for autistic people across the lifespan. Lancet Neurology, 19(5), 434-451.

Bandeiras vermelhas

  • Meltdown com auto-agressão, protocolo de segurança imediato, eventual contato com referência psiquiátrica do paciente.
  • Sessão online com paciente em residência compartilhada, confirmar segurança ambiental antes da janela aguda.
  • Recorrência semanal de meltdown em sessão, sinal de que o enquadre precisa de revisão estrutural, não apenas técnica.

Notas de uso entre colegas

O que estes protocolos são, e o que não são

Os três protocolos de referência são organizadores clínicos sustentados por literatura primária, não dispensam supervisão, interconsulta e revisão regular do enquadre. Cada caso real exige do colega a leitura singular que nenhum protocolo entrega pronto. A literatura citada está datada explicitamente; revisões são feitas em ciclo bianual a partir do registro deste portal.

Os protocolos não substituem a formação clínica regular do colega. Não convertem TCC em DBT, terapia familiar em terapia individual, ou abordagem psicodinâmica em manual de comportamento. Adaptam o enquadre nomeando parâmetros, clareza explícita de objetivos, previsibilidade da sessão, regulação sensorial do setting, manejo de fadiga social, literalidade como recurso. A discussão completa dos oito ajustes operacionais está na página raiz /profissionais.

Encaminhamentos para Larissa Caramaschi dentro do escopo de referência (adulto autista nível 1, casal neurodivergente, família sistêmica com adulto autista no sistema) seguem o canal de contato profissional. Não há split de honorários nem reciprocidade obrigada, apenas a continuidade ética que sustenta a rede de colegas.

Próximos passos para colegas

Supervisão, interconsulta ou encaminhamento

Colegas que recebem paciente com hipótese de TEA adulto nível 1 ou configuração de casal neurodivergente e querem leitura técnica antes de decidir entre conduzir ou encaminhar têm canal próprio. A supervisão individual ou em grupo é descrita em página dedicada, com modalidades, frequência negociável e interconsulta de caso anonimizado.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online). Os protocolos descritos nesta página seguem a Resolução CFP nº 03/2007, a Resolução CFP nº 11/2018 e o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Não há promessa de resultado terapêutico, comparativo entre profissionais ou captação de paciente entre colegas.