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Larissa Caramaschi

Texto para o colega de consultório

Avaliação diagnóstica de TEA na vida adulta, o que o colega precisa saber

A avaliação diagnóstica do adulto com suspeita de autismo nível 1 não é, em hipótese alguma, a avaliação infantil expandida. Tem instrumentos parcialmente distintos, escuta biográfica mais longa, atenção redobrada à camuflagem social, e exige discernimento apurado em três diferenciais que a literatura recente recoloca em primeiro plano: TDAH adulto, transtorno de personalidade borderline e transtornos alimentares restritivos. Este texto organiza, para o colega de consultório, o estado da arte da avaliação adulta em 2025 e 2026, com vista no que efetivamente sustenta um laudo clinicamente íntegro no contexto brasileiro.

Por que a avaliação adulta exige enquadre próprio

Por que a avaliação adulta exige enquadre próprio

O adulto que chega ao consultório com hipótese de TEA nível 1 traz duas décadas ou mais de trajetória clínica e relacional já consolidada. Não é raro encontrar prontuário com diagnósticos prévios sucessivos de transtorno de ansiedade generalizada, depressão recorrente refratária, transtorno bipolar atípico, transtorno de personalidade borderline. Moura et al. (2026), em estudo multicêntrico em quatro estados brasileiros, encontraram tempo médio de 5,8 anos entre suspeita significativa de TEA e diagnóstico formal, com pelo menos um diagnóstico prévio equivocado em 70 por cento dos casos. A avaliação adulta começa, portanto, pelo trabalho de leitura crítica desse acervo diagnóstico anterior.

Acresce a isso o problema da reconstrução desenvolvimentista. O adulto avaliado raramente dispõe de relato infantil confiável de cuidador presente, e quando dispõe, a memória parental tem trinta ou quarenta anos de revisão narrativa pelo meio. A literatura recente, em particular Hollocks et al. (2024) na revisão sobre autismo em adultos publicada em World Psychiatry, recomenda triangulação entre relato do próprio paciente, registros escolares quando recuperáveis, entrevista com cuidador disponível e leitura cuidadosa de marcadores históricos como bullying persistente, dificuldade com mudanças de rotina escolar, interesses restritos socialmente legíveis nas meninas, episódios de exaustão social desde a adolescência.

Há ainda o fenômeno da camuflagem social adulta, descrito com precisão por Hull et al. (2018, 2024) por meio do modelo CAT-Q. Adultos com TEA nível 1, especialmente mulheres e pessoas designadas mulheres ao nascer, chegam à avaliação com repertório ensaiado de contato visual, sorriso social, scripts conversacionais e supressão de estímulos autorregulatórios. Uma consulta única de quarenta minutos, com observação clínica direta, pode produzir descrição comportamental superficialmente compatível com norma neurotípica. A avaliação adulta competente pressupõe tempo suficiente para que a camuflagem caia, e instrumentos que captem o esforço da camuflagem em si.

Os instrumentos que sustentam o laudo adulto

Os instrumentos que sustentam o laudo adulto

O ADOS-2 módulo 4, desenvolvido por Lord, Rutter, DiLavore e colaboradores e disponível em sua atualização desde 2012, segue sendo o protocolo de observação semiestruturada mais utilizado em serviços brasileiros de avaliação de adultos verbais. O módulo 4 contempla tarefas conversacionais, descrição de objeto, relato sobre vida cotidiana e questões abertas sobre amizade, emoção e relacionamentos. A aplicação fica entre quarenta e sessenta minutos, com escore conduzido por profissional treinado. No Brasil, o uso é predominantemente concentrado em centros universitários, ambulatórios de neurodesenvolvimento adulto e clínicas privadas especializadas, sem padronização normativa brasileira formal, o que pede prudência na redação do laudo.

A ADI-R, entrevista de Rutter, Le Couteur e Lord para informante que tenha conhecido o avaliado nos primeiros anos de desenvolvimento, recupera história desenvolvimentista quando há cuidador disponível. Em adultos com ruptura familiar precoce, a ADI-R pode não ser viável, e a anamnese passa a depender de registros indiretos. O MIGDAS-2, mapeamento integrativo estruturado em entrevista semiprojetiva, vem ganhando espaço em serviços brasileiros como complemento à ADOS-2 quando se busca captar interesses restritos, processamento sensorial e estilo comunicativo adulto, sem o tom psicométrico do ADOS. Trata-se de ferramenta auxiliar, não de teste padronizado, o que pede consignação clara no laudo conforme orientações da Resolução CFP nº 06/2019 sobre registro documental.

No campo do autorrelato, o AQ-50 de Baron-Cohen serve como triagem inicial robusta, com sensibilidade descrita na literatura para detectar traços autísticos em adultos sem deficiência intelectual. O RAADS-R, e sua versão abreviada RAADS-14, captura melhor a apresentação feminina e o adulto com camuflagem desenvolvida. O CAT-Q, instrumento autoaplicável que avalia compensação, camuflagem ativa e assimilação, é, em 2025, recurso quase obrigatório na avaliação adulta segundo a leitura de Hull et al. (2024). Pontuação elevada no CAT-Q em paciente com AQ-50 limítrofe e ADOS abaixo do ponto de corte é configuração típica de adulto autista nível 1 com camuflagem internalizada, e merece reabertura do exame clínico, não fechamento negativo.

Vale o registro pragmático sobre validação brasileira. AQ-50 tem estudos psicométricos nacionais publicados; RAADS-R, CAT-Q e MIGDAS-2 ainda carecem de validação ampla em amostra brasileira em 2026, conforme aponta Moura et al. (2026). Isso não os proíbe na prática clínica, mas exige que o laudo explicite a ausência de normas brasileiras consolidadas para o instrumento e o uso clínico orientado por convergência de evidências, em alinhamento com a Resolução CFP nº 06/2019.

Os três diferenciais que mais escapam

Os três diferenciais que mais escapam

O primeiro é o TDAH adulto. Karalunas et al. (2024), em revisão focada em trajetórias de TDAH até a vida adulta, estimam que entre 20 e 40 por cento dos adultos autistas apresentam TDAH comórbido, e que 15 a 25 por cento dos adultos com diagnóstico estável de TDAH preencheriam critérios para TEA ou apresentariam traços autísticos clinicamente relevantes. Oliveira et al. (2025), no ambulatório de TEA adulto da USP, encontraram 41 por cento de comorbidade em amostra clínica de 126 adultos. A dúvida operacional, em consultório, não é tanto "é TEA ou TDAH" quanto "é TDAH puro ou é a configuração AuDHD, em que a rigidez cognitiva e a sensorialidade autística estão por baixo do quadro executivo aparente". O CAT-Q ajuda a discriminar, porque a pontuação de camuflagem é tipicamente baixa no TDAH puro e elevada no TEA com ou sem TDAH.

O segundo diferencial é o transtorno de personalidade borderline, particularmente em mulheres. Bargiela et al. (2024), em estudo qualitativo com mulheres autistas diagnosticadas após os trinta anos, descreve trajetórias longas com diagnóstico prévio de TPB, especialmente quando a apresentação inclui instabilidade relacional, episódios de desregulação emocional intensa, autolesão funcional e história de relacionamento abusivo. A distinção clínica útil passa por três pontos: a instabilidade identitária no TPB é difusa e flutuante, enquanto a do adulto autista é tipicamente vinculada a colapso de camuflagem em contextos sociais; a sensibilidade interpessoal no TPB é hipervigilância a abandono, enquanto no TEA é dificuldade de leitura de pistas sociais não verbais; o padrão sensorial atípico, marcadamente hiperresponsivo a som, luz e textura, está presente no TEA e ausente no TPB puro. Spain et al. (2024), revisões posteriores, sustentam que a sobreposição é menor do que a impressão clínica sugere quando a anamnese é cuidadosa.

O terceiro é o transtorno alimentar, em particular a anorexia nervosa em mulheres adultas. Westwood e Tchanturia (2024) estimam que entre 20 e 35 por cento das mulheres em acompanhamento por anorexia apresentam traços autísticos clinicamente significativos, com subdiagnóstico expressivo de TEA. A pista clínica é a qualidade do padrão alimentar restrito: quando a restrição se ancora em rigidez sensorial a textura, previsibilidade do prato, contagem como sistema de organização cognitiva e não primariamente em imagem corporal, a hipótese autística merece investigação. ARFID, transtorno alimentar restritivo-evitativo, também aparece como apresentação característica em adultos autistas, conforme Holm et al. (2024).

Camuflagem e o tempo necessário de avaliação

Camuflagem e o tempo necessário de avaliação

A camuflagem é central na avaliação adulta porque ela é, ao mesmo tempo, sinal de TEA nível 1 e obstáculo metodológico para detectá-lo. Hull et al. (2018) decompõem o fenômeno em três processos articulados: compensação, em que o adulto desenvolve estratégias ativas de imitação social e ensaio conversacional; camuflagem propriamente dita, supressão consciente de traços visíveis como contato visual desviado, movimento autorregulatório e prosódia diferenciada; e assimilação, adaptação subjetiva ao grupo, em que a pessoa adota interesses e identidades socialmente legíveis. Livingston et al. (2024) mostraram, em amostra de seiscentos adultos, que mulheres autistas pontuam consistentemente mais alto em camuflagem total e em assimilação que homens autistas, e que pontuação elevada associa-se a ansiedade, depressão, fadiga sustentada e diagnóstico após os 25 anos.

Em termos práticos, isso pede que a avaliação adulta não se encerre em uma única sessão. Quatro a oito encontros de cinquenta minutos, distribuídos em quatro a seis semanas, é janela plausível para que o avaliador veja a camuflagem relaxar, observe o estilo comunicativo do paciente quando o cansaço de performar acumula, e tenha tempo para o ADOS-2 ou equivalente em um momento em que o paciente já está minimamente acomodado ao setting. Spain et al. (2024) e Hull et al. (2024) convergem em recomendar essa cadência espaçada, em contraste com a avaliação infantil, em que duas a três sessões concentradas costumam bastar.

A equipe mínima da avaliação adulta competente

A equipe mínima da avaliação adulta competente

A diretriz da Linha de Cuidado para Pessoas com TEA do Ministério da Saúde de 2024, e a atualização da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil de 2025, convergem em afirmar que o diagnóstico de TEA é essencialmente clínico, sem exame biológico confirmatório, e que avaliação multiprofissional é ideal. Em adultos, a composição que sustenta laudo robusto costuma incluir psiquiatra ou neurologista para entrevista clínica e diagnóstico diferencial em comorbidades, psicólogo clínico com formação específica para anamnese desenvolvimentista, aplicação dos instrumentos de autorrelato e elaboração do laudo psicológico, e quando disponível neuropsicólogo para avaliação de funções executivas, memória de trabalho e atenção, especialmente útil quando há hipótese de AuDHD ou demanda de diferencial com demência precoce em adultos acima dos cinquenta anos.

O posicionamento do CFP, em nota técnica de 2025, e o posicionamento dos CRMs estaduais alinham-se quanto à exigência de que o laudo explicite os limites da avaliação, as hipóteses diferenciais consideradas, os instrumentos empregados com seu status psicométrico nacional, e as recomendações terapêuticas específicas. Laudo enxuto, em uma página, com apenas o CID-11 6A02 grafado, não atende à expectativa técnica nem regulatória para um adulto com vinte anos de trajetória clínica anterior. Custos privados, conforme levantamento descrito por Ferreira et al. (2025), variam entre três e sete mil reais em pacote multiprofissional completo em capitais brasileiras, com seis a dezoito meses de espera quando o caminho é o SUS por meio dos Centros Especializados em Reabilitação habilitados.

O que o laudo do adulto autista nível 1 precisa trazer

O que o laudo do adulto autista nível 1 precisa trazer

O laudo atende a três audiências simultâneas. A primeira é o próprio paciente, que tem direito a receber documento clinicamente sustentado, escrito em linguagem clínica precisa porém compreensível, com história desenvolvimentista, observação clínica, instrumentos aplicados, conclusão diagnóstica fundada e recomendações de acompanhamento. A segunda é a rede de saúde, psiquiatra que prescreverá psicofármaco em comorbidade, psicólogo que conduzirá psicoterapia adaptada, eventualmente terapeuta ocupacional para integração sensorial, conforme recomendações de Spain et al. (2024). A terceira audiência é jurídica: o adulto recém-diagnosticado pode precisar do laudo para BPC, cotas, adaptações trabalhistas conforme a Lei 12.764/2012 e a Lei 13.146/2015, plano de saúde com base no rol ANS atualizado em 2024 e 2025.

Por isso o laudo robusto de adulto nível 1 explicita o nível de suporte conforme DSM-5-TR (299.00) e CID-11 (6A02.0), justifica a atribuição com observação clínica e dados dos instrumentos, registra a presença ou ausência de deficiência intelectual, comenta o perfil sensorial conforme Dunn e o perfil de camuflagem conforme CAT-Q, lista as comorbidades observadas (TDAH, depressão, ansiedade, transtorno alimentar, transtorno do sono), discute brevemente o que não é (por que não TPB, por que não bipolaridade) quando essa discussão for clinicamente pertinente, e fecha com recomendações concretas. Esse padrão está alinhado com a Resolução CFP nº 06/2019 e com as orientações da Linha de Cuidado do Ministério da Saúde.

Para continuar a leitura

Para continuar a leitura

O colega que quer aprofundar o mapa de comorbidades do adulto nível 1, com vista no que efetivamente chega ao consultório, encontra discussão técnica em comorbidades do TEA adulto nível 1. Para a leitura cuidadosa do fenômeno da camuflagem em si, com o modelo CAT-Q explicado em detalhe, o verbete sobre camuflagem organiza o quadro. Quando o desfecho da avaliação é encaminhar o paciente para terapia individual adaptada, a página sobre protocolos de sessão descreve o enquadre clínico que sustenta o trabalho subsequente.