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Larissa Caramaschi

Casais neurodivergentes

Dupla empatia no consultório de casal

Marcos e Camila estão juntos há doze anos, têm duas crianças, e chegaram ao consultório de casal seis meses depois de Marcos receber, aos 43, o laudo de TEA nível 1 de suporte. A queixa que Camila trouxe na primeira sessão tinha versão de quem repetiu a frase muitas vezes em casa: ele nunca percebe quando eu estou triste, ele nunca pergunta primeiro. A queixa de Marcos, dita com cuidado de quem ainda está aprendendo a ouvir o próprio nome de outro jeito, era espelhada: ela diz que está bem quando pergunto, e depois fica com raiva porque eu acreditei.

Por décadas, a leitura clínica de uma cena assim teria sido previsível. Marcos teria sido descrito como portador de um déficit de leitura social, Camila teria sido orientada a ser mais paciente com o déficit dele, e a terapia teria se organizado em torno de ensinar Marcos a interpretar microexpressão. O que mudou entre 2012 e hoje não foi a clínica do casal, foi a moldura conceitual de fundo. Em 2012, um sociólogo autista chamado Damian Milton, então pesquisador na Universidade de Kent, publicou um artigo curto na revista Disability & Society com uma reorganização que demorou quase uma década para chegar à mesa de trabalho da maior parte dos psicólogos clínicos. O argumento de Milton tem essa qualidade rara de ser, ao mesmo tempo, óbvio depois de dito e contraintuitivo antes: se o adulto autista tem dificuldade em ler o adulto neurotípico, é razoável presumir que o oposto também aconteça, e se o oposto também acontece, então o que se chamava de déficit individual era, em parte significativa, descrição parcial de um fenômeno bilateral.

Esta peça é sobre como essa moldura entra no consultório de casal. Não como teoria importada. Como leitura que muda, na prática cotidiana, o que se trabalha com Marcos, com Camila, e com o vínculo que existe entre os dois.

Milton, em prosa, sem ostentação

Um artigo curto, escrito por dentro

O paper de Milton tem cinco páginas e nenhum dado experimental. É um ensaio teórico, em sentido estrito, e foi recebido como ensaio teórico quando saiu, circulou em estudos da deficiência, demorou a chegar à psicologia clínica, levou ainda mais tempo para chegar à clínica de casal. A virada de impacto não veio do texto em si. Veio de quem o escreveu. Milton é autista, e a literatura sobre autismo até a década de 2010 era escrita quase inteiramente por pesquisadores não autistas sobre pessoas autistas, frequentemente sem que essas pessoas tivessem participação na formulação das perguntas que apareciam nos questionários. O ponto de Milton é, em sua forma mais sóbria, este: se a única perspectiva mobilizada para descrever a dificuldade comunicacional entre autistas e não autistas é a perspectiva não autista, era previsível que a dificuldade fosse codificada como déficit de um dos lados.

A tese ficou conhecida em inglês pelo nome double empathy problem. Em português, problema da dupla empatia, ou apenas dupla empatia. O nome é um pouco infeliz porque sugere déficit em ambos os lados, e o argumento original é menos sobre déficit e mais sobre tradução, sobre dois sistemas que organizam significação social de maneiras suficientemente diferentes para que o encontro entre eles produza, de modo previsível, ruído. A palavra que aparece mais vezes no paper original, traduzida para o português, é incompatibilidade de normas. O que Milton questiona não é a capacidade individual de empatia. É a presunção de que existe uma norma social neutra contra a qual se mede o grau de adequação social do outro.

O que apareceu na evidência empírica depois

De ensaio teórico a programa de pesquisa

O texto de Milton ficou em silêncio relativo até 2016, quando Elizabeth Sheppard, no Reino Unido, publicou um estudo em que observadores neurotípicos assistiam a gravações curtas de adultos autistas e eram pedidos a julgar competência social, tom emocional, intenção comunicativa. O achado, replicado várias vezes desde então, é que a leitura não autista do adulto autista é sistematicamente mais severa, mais desconfiada e menos empática do que a leitura entre pares neurotípicos, e que essa avaliação se forma em poucos segundos de exposição, antes que qualquer interação real aconteça. Sheppard não escreveu o paper como teste da dupla empatia, mas o resultado se encaixava na moldura de Milton com precisão incômoda: uma parte do que vinha sendo descrito como déficit de habilidade social autista era, quando observada de perto, julgamento social do observador.

A virada metodológica mais ampla veio com Catherine Crompton, na Universidade de Edimburgo, em parceria com Sue Fletcher-Watson e Danielle Ropar. Em 2020, Crompton e colegas publicaram em Frontiers in Psychology um experimento que ficou conhecido pela imagem da transmissão em cadeia, um adulto contava uma história para outro, esse para um terceiro, esse para um quarto, e assim por diante. As cadeias eram montadas em três tipos: só com adultos autistas, só com adultos neurotípicos, e mistas. As cadeias homogêneas, autistas e neurotípicas indistintamente, preservaram informação com qualidade comparável ao longo da transmissão. As cadeias mistas perderam informação de modo significativo. O que falhava não era a competência comunicacional de um dos grupos, era a interface entre os dois.

Brett Heasman, com Alex Gillespie, na London School of Economics, fez um trabalho paralelo de natureza diferente. Em vez de experimentos de laboratório, etnografia, observação de interações reais entre adultos autistas e entre adultos autistas e neurotípicos, em ambientes cotidianos, ao longo de meses. Os estudos de 2018 e 2019 do par mostraram que, quando autistas interagem entre si, há menos esforço de tradução, menos vigilância sobre o próprio comportamento, mais conforto. Não é que o autismo desapareça em sala com outros autistas. É que o esforço comunicacional desproporcional, que adultos autistas relatam carregar em interações com neurotípicos, fica significativamente menor entre pares. Crompton voltou ao tema em 2021, com pesquisa qualitativa, e os participantes descreveram, com vocabulário próprio, exatamente o que a hipótese previa: a sensação de ser entendido sem precisar traduzir.

A literatura mais recente, incluindo trabalhos associados a Peter Mitchell e Eilidh Cage entre 2023 e 2025, refinou o quadro sem desfazê-lo. Não é que toda dificuldade social autista seja artefato da interface mista. Há diferenças individuais reais — de ansiedade, de alexitimia, de pragmática, de história, e elas continuam importando. O ponto da literatura acumulada é mais modesto e mais difícil de descartar: a moldura unilateral, em que o autista tem o problema e o neurotípico tem o padrão, é empiricamente insustentável. O que existe entre os dois é encontro entre normas, e o encontro produz ruído nos dois sentidos.

O que isso muda na sala

Tratar interface em vez de tratar indivíduo

Volto a Marcos e Camila. A primeira coisa que muda, quando a moldura de Milton entra na sala, é uma redistribuição da gramática da queixa. A frase ele nunca percebe quando eu estou triste passa por uma reformulação trabalhada, em duas, três, dez sessões, dependendo do casal, até virar algo mais perto de eu sinalizo tristeza pelo canal em que aprendi a sinalizar, e ele não recebe nesse canal, e eu ainda não aprendi a sinalizar pelo canal em que ele recebe. A frase é mais longa, é mais sem graça, e descreve com precisão razoável a cena. Marcos, na ponta dele, faz movimento equivalente. A frase ela diz que está bem e depois fica com raiva vira, ao longo do trabalho, eu acredito no que ela me diz literalmente porque é assim que processo a fala dela, e ela espera que eu leia também o que ela não disse, e eu ainda não tenho referência interna para isso.

A reformulação não é cosmética. Ela muda o que se trabalha. A versão antiga da queixa pedia mudança de caráter, Marcos precisaria ficar mais atento, Camila precisaria ficar mais paciente, e os dois passariam anos em terapia treinando virtudes que não vinham. A versão reformulada pede repertório novo, de dois lados. Camila pratica nomear afeto em vocabulário literal quando precisa que Marcos chegue. Não é, vale dizer, abolição da ambiguidade poética da intimidade, é uso situacional do canal que funciona quando o assunto é entrar em contato emocional honesto. Marcos pratica, por sua vez, perguntar de novo quando a resposta dela vier curta demais para o contexto, e oferecer presença sem solução quando ela nomear que é isso que precisa. O casal constrói, em paralelo, um terceiro repertório, comum aos dois, traduzível por ambos, que não pertence à gramática neurotípica nem à gramática autista de origem, e é justamente isso que torna o vínculo sustentável no médio prazo.

A segunda mudança é mais discreta e talvez mais importante. Quando o casal aceita que o problema é a interface, e não um dos dois cérebros, libera-se espaço para algo que a versão antiga da terapia raramente acomodava: a possibilidade de que cada um dos dois esteja, ao mesmo tempo, fazendo o melhor que pode com o repertório que tem, e ainda assim falhando com o outro. A frase ele não tem empatia, dita por Camila na primeira sessão, é uma frase moral. A frase ele tem repertório de empatia diferente do meu e eu não aprendi a recebê-lo é uma frase clínica. A primeira encerra a conversa. A segunda abre. Em consultório de casal neurodivergente, a única razão de existir do trabalho é abrir conversa onde ela tinha se encerrado.

Citação de Milton (2012)

“Um problema de dupla empatia surge entre pessoas com normas e expectativas diferentes, não como déficit unilateral do autista em relação ao neurotípico, mas como falha mútua em decodificar o outro, com responsabilidade partilhada.”

Damian Milton, paráfrase do argumento de On the ontological status of autism: the double empathy problem, Disability & Society, 2012. Tradução clínica de Larissa Caramaschi.

O que esta lente não absolve

Honestidade sobre o limite da moldura

A dupla empatia descreve mecânica comunicacional entre dois estilos de processamento social. Descreve. Não absolve. Há configurações em que o que parece ruído de tradução é, na verdade, exaustão crônica de quem carregou a maior parte do esforço comunicacional por anos, frequentemente a parceira neurotípica de adulto autista, em casamentos heteronormativos, embora a configuração apareça em todos os arranjos. Reconhecer que a falha é mútua não significa dizer que o cansaço de quem traduziu duas vezes seja igual ao cansaço de quem foi mal lido duas vezes. A leitura clínica honesta nomeia a assimetria acumulada, mesmo quando a teoria do encontro é simétrica.

Há também conflito conjugal que não tem nada a ver com neurodivergência. Padrão de cuidado adquirido na família de origem, divergência profunda de projeto de vida, dinâmica de poder, padrão de apego inseguro, essas dimensões existem, operam, e não são traduzíveis pela lente de Milton. Quando o trabalho clínico se ancora apenas na moldura da dupla empatia, em casal que está, na verdade, em incompatibilidade de outro nível, a terapia vira teatro técnico. A lente é útil quando o terapeuta consegue, em paralelo, ouvir o que ela explica e o que ela não explica.

E há, por fim, a fronteira mais difícil. Diferença neurológica explica mecanismo, mas nunca justifica violência. Quando há violência física, verbal, patrimonial ou sexual no casal, a indicação clínica não é terapia de casal sob nenhuma lente, é interrupção, proteção e encaminhamento. Nada na literatura sobre dupla empatia, em nenhuma das suas versões, autoriza relativizar isso.

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Onde esta leitura continua

A peça vizinha, diferenças invisíveis de processamentodescreve cinco camadas que sustentam o conflito conjugal neurodivergente em superfície distinta da camada comunicacional — processamento emocional, comunicação implícita versus explícita, previsibilidade, sensorialidade, necessidade relacional. A peça que descreve o exercício clínico aplicado ao casal, o mapa sensorial do casalentra na dimensão sensorial em prosa de quem aplica o exercício em consultório.

Quando a leitura clínica pede acompanhamento

Se este texto reorganizou alguma coisa no jeito como você vinha lendo a comunicação do casal e você considera iniciar terapia, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia pela USP, Inscrição CRP em atualização.

Conhecer formas de contato

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

As cenas e nomes que aparecem ao longo do texto são composições clínicas, agregados de configurações recorrentes em consultório, sem correspondência a paciente identificável.