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Larissa Caramaschi

Para a mulher adulta e para o consultório

Camuflagem feminina na vida profissional: o custo que se acumula

Mariana, 44, gerente de área numa indústria de bens de consumo, chega ao consultório por encaminhamento do psiquiatra. O laudo de TEA nível 1 saiu há dois meses. A queixa que ela traz na primeira sessão não é a do diagnóstico recente. É uma constatação de cansaço: entendeu que a carreira que parecia funcionar custou, durante vinte anos, um trabalho silencioso que ninguém via, nem ela própria reconhecia. Esse trabalho tem nome na literatura. Camuflagem, ou masking, é a tentativa cotidiana de parecer neurotípica num ambiente que recompensa quem se parece neurotípica. Em mulheres autistas que conseguiram permanecer no mercado corporativo até os 35, 40, 50 anos, é praticamente inevitável.

O que se entende por camuflagem

Três operações que andam juntas o dia inteiro

Laura Hull, num estudo de 2019 publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, descreveu três componentes distintos do que chamou de camuflagem. A compensação é o esforço de superar dificuldade social com estratégia ensaiada: estudar o que dizer numa reunião antes da reunião, ensaiar como dar bom dia ao entrar no andar, treinar mentalmente o tom de voz para não parecer monocórdia. O mascaramento é o esforço ativo de esconder traço autista visível: forçar o contato visual, suprimir o movimento repetitivo da perna durante uma apresentação, manter expressão facial neutra mesmo com sobrecarga sensorial em curso. A assimilação é o esforço de se misturar ao grupo, de não destoar: rir quando todos riem, mesmo sem ter entendido a piada, ir ao happy hour porque é o que se espera, vestir o que as colegas vestem para não chamar atenção.

Hull desenvolveu, com William Mandy em Londres e colaboradores, o questionário CAT-Q, sigla em inglês para Camouflaging Autistic Traits Questionnaire, publicado em 2020. É hoje o instrumento mais usado em avaliação adulta para medir camuflagem. A literatura posterior, em particular o trabalho de Amy Pearson em 2021 sobre camuflagem em adultos racializados e LGBTQIA+, expandiu o modelo para populações que os primeiros estudos não cobriam. Em 2024, Livingston e colegas, em estudo na Autism Research com 600 adultos autistas, confirmaram com clareza que mulheres pontuam significativamente mais alto em camuflagem total e nas subescalas de mascaramento e assimilação, e que essa pontuação se correlaciona com depressão, ansiedade, fadiga e probabilidade de diagnóstico depois dos 25 anos.

O que isso é dentro de um dia útil

Como a camuflagem ocupa a jornada inteira

Mariana entra no prédio às oito e meia. Antes de subir, checa pelo celular o feed interno da empresa, para saber se houve algum anúncio que precise comentar no andar. Ao sair do elevador, sorri para o segurança com a modulação de voz que ensaiou de manhã ao escovar os dentes. Para na copa, pega café, dedica um minuto a comentar com a colega o filme que estreou no fim de semana, mesmo sem o ter visto, porque é o assunto que circula. Senta-se à mesa, abre a agenda e nota com alívio que a reunião das nove foi cancelada. Ganhou quarenta minutos de silêncio. Esses quarenta minutos não são tempo livre. São tempo de recuperação para a próxima rodada.

A descrição é caricata só para quem nunca viveu. Para a mulher autista nível 1 em ambiente corporativo, é o padrão de boa parte da semana. A reunião que de fora dura quarenta minutos exige, dela, três horas de preparação para parecer espontânea, e meia tarde de recuperação depois. O happy hour de quinta exige negociação interna desde a terça. A apresentação trimestral exige a semana inteira em estado de hiperfoco compensatório, com noites mal dormidas, com esquecimento do que comeu no jantar. Bargiela e colegas, em entrevistas com mulheres diagnosticadas após os 30, descreveram esse padrão como o pano de fundo silencioso de carreiras inteiras.

A estabilidade que não é estável

Por que a performance corporativa engana

Há um detalhe difícil de explicar para chefias bem intencionadas. A mulher autista com camuflagem alta é, em geral, ótima funcionária. Cumpre prazo. Antecipa problema. Documenta tudo. Pede pouco. Não falta. A avaliação anual costuma ser elogiosa, e a promoção chega na hora certa. De fora, ninguém vê risco. De dentro, o sistema está em sobrecarga crônica desde sempre. Quando o colapso chega, costuma chegar de uma vez, e raramente é interpretado como o que é. Vira diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada num atestado de duas semanas. Vira depressão maior num afastamento de três meses. Vira fibromialgia depois de cinco anos de dor crônica sem causa identificada. Pereira e colegas, em estudo multicêntrico europeu de 2024, descreveram a forte sobreposição entre hipersensibilidade sensorial, sobrecarga e quadros de dor crônica em adultos autistas, com a maioria de mulheres na amostra.

O burnout autista feminino tem características que o diferenciam do burnout ocupacional clássico, ainda que os dois possam coexistir. Há perda funcional gradual, com queda da capacidade de camuflar primeiro: começa a custar muito mais ir ao escritório, começa a ser insuportável o som da copa, começa a doer fisicamente o esforço de manter contato visual. Há também alterações sensoriais que se intensificam: roupas que antes eram toleráveis viram insuportáveis, comida perde o sabor, luz pesa. E há, por fim, perda da capacidade de manter a fachada relacional na vida fora do trabalho. A mulher que sempre foi a amiga presente cancela três sábados seguidos. A esposa que sempre fez o esforço social do casamento começa a não conseguir mais.

O que acompanha o quadro

Comorbidades que costumam aparecer junto

Mathew Hollocks, em síntese de 2024 na World Psychiatry, estima prevalência de transtornos de ansiedade entre 40 e 60 por cento em adultos autistas sem deficiência intelectual, e de depressão maior ao longo da vida entre 30 e 50 por cento. Em mulheres, os números tendem para a borda superior do intervalo, com acréscimo de quadros de transtorno alimentar (em particular padrão restritivo) e fibromialgia. Westwood e Tchanturia, em revisão recente, estimam que entre 20 e 35 por cento de mulheres com anorexia nervosa apresentam traços autistas clínicos, com subdiagnóstico de TEA. A leitura clínica importante, em todos os casos, é que esses quadros não são simplesmente comorbidades aleatórias. Vários deles são consequência direta da camuflagem mantida por décadas em ambiente que não recompensa, em geral nem reconhece, o esforço silencioso.

No Brasil, dados sistemáticos sobre essa interseção ainda são escassos. Nunes e Pereira, em revisão integrativa de 2025 na Psicodebate, sintetizam a literatura disponível e apontam a urgência de capacitação dos profissionais de saúde mental brasileiros para reconhecer o quadro. Em consultório, o sinal clínico que mais se repete é o da mulher de 35 a 50 anos com história de diagnósticos psiquiátricos sucessivos parciais, que chega buscando entender por que os tratamentos anteriores ajudaram algumas coisas e não tocaram no centro.

O que se faz com o que se descobre

Reduzir camuflagem é trabalho lento

A vontade de quem recebeu o laudo recente, e que está cansada, é largar tudo. Pedir demissão, mudar de cidade, parar de socializar. O movimento é compreensível e raramente é o melhor primeiro passo. Reduzir camuflagem é trabalho clínico de meses, e em geral funciona por subtração gradual, não por ruptura. Identifica-se, com a paciente, quais esforços compensatórios deixaram de fazer sentido (rir do que não tem graça, ir ao happy hour que não dá prazer), quais ainda têm função (preparar previamente reunião importante) e quais podem ser abertamente nomeados com o time como adaptação necessária (usar fone com cancelamento de ruído, pedir agenda da reunião com antecedência, sair mais cedo dois dias por semana). Não é receita. É negociação caso a caso, em geral em interlocução com a área de gente da empresa, quando há ambiente minimamente seguro para isso.

Para a colega de consultório que recebe essa paciente, vale uma observação. O CAT-Q deveria ser usado de rotina em qualquer avaliação diagnóstica de adulto com suspeita de TEA nível 1, em particular em mulheres. Hull, em revisão de 2024, recomenda explicitamente esse uso, porque avaliações breves tendem a subestimar dificuldades reais quando a camuflagem é alta. A adaptação brasileira de Santos e Vidal, de 2022, ainda carece de normas amplas, mas já é utilizável como referência clínica. O cuidado metodológico, em todo caso, é interpretar o resultado como conversa, não como número fechado.

O que se diz à paciente

Uma carreira não desfeita, uma carreira renegociada

Mariana, depois de oito meses de acompanhamento, segue na mesma empresa. Mudou de área lateralmente, para função com menos exposição a reunião grande. Negociou dois dias de home office fixos. Parou de ir ao happy hour de quinta sem dar explicação que não devia. Tem dormido melhor. O salário ficou estável, a carreira não foi destruída, e a mulher que entra no consultório na sessão de hoje é uma versão menos tensa da que entrou no ano passado. Esse é, com frequência, o desfecho realista do trabalho clínico com mulher autista nível 1 em vida corporativa entre 35 e 50 anos. Não há heroísmo. Há reorganização honesta de esforço, com nome novo para o que sempre custou tanto, e com o cuidado de não trocar a camuflagem antiga por uma performance nova chamada autoaceitação.

Para continuar a leitura

Para continuar a leitura

Para o contexto mais amplo da travessia diagnóstica feminina depois dos 30, há o texto irmão sobre a mulher adulta que descobre, aos 35, que sempre foi autista. Para o conceito clínico em página própria, com vocabulário e fontes, vale o verbete sobre camuflagem e o de burnout autista. Para a colega de consultório que atende esse perfil com frequência, segue aberto o espaço de supervisão clínica.