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Larissa Caramaschi

Ensaio · Nota epistemológica

Ler camuflagem com cuidado

O que o pesquisador brasileiro precisa considerar antes de usar o CAT-Q

Larissa Caramaschi · 18 de maio de 2026 · leitura para pesquisa

Abertura

Quando o construto vira hashtag, o pesquisador precisa olhar duas vezes

A camuflagem autista, o conjunto de estratégias usadas por adultos autistas para parecer não autistas em contexto social — foi descrita por Lai et al. (2017, DOI 10.1177/1362361316671012), operacionalizada por Hull et al. (2019, DOI 10.1007/s10803-018-3792-6) no Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q), e em pouco tempo virou um dos conceitos mais influentes da literatura de TEA adulto. Para quem acompanhou o campo, isso é boa notícia: a camuflagem nomeou um fenômeno clínico que adultos autistas vinham descrevendo havia décadas sem encontrar palavra técnica. Para a clínica adulta, foi um divisor. Para a pesquisa, é também um momento de cuidado.

O construto migrou em pouco tempo do laboratório para o discurso público, TikTok, Instagram, fóruns autistas, autoavaliação online sem mediação clínica. Cada migração desse tipo cobra um preço metodológico. O conceito acumula sentidos populares que divergem da operacionalização original, a escala passa a ser respondida por populações para as quais não foi validada, e a tradução cultural, quando feita, não chega a ser psicométrica. Este texto endereça quem está desenhando projeto de pesquisa brasileiro com CAT-Q ou com construto de camuflagem, e pergunta: o que precisa estar resolvido antes de aplicar a escala?

O construto original

O que o CAT-Q se propõe a medir

O CAT-Q tem vinte e cinco itens, distribuídos em três subescalas: compensation (estratégias compensatórias para suprir dificuldade social), masking (esconder traços autistas) e assimilation (esforço para se ajustar ao grupo). O artigo de validação de Hull et al. (2019) reporta consistência interna adequada e correlação coerente com escores de saúde mental. A escala foi publicada com instruções explícitas: é instrumento de autorrelato, não confirma nem refuta diagnóstico, e o escore alto não tem significado clínico isolado, depende do contexto do respondente e da interpretação do clínico ou pesquisador.

A teoria por trás da escala já era refinada em 2019. Hull e Mandy distinguem motivos para camuflar (aceitação social, segurança em ambiente hostil, evitação de estigma), estratégias usadas (mascarar tom de voz, simular contato visual, copiar expressão facial) e efeitos da camuflagem (exaustão, dissolução de senso de identidade, depressão, ideação suicida). O CAT-Q, por restrição metodológica de tamanho, opera principalmente na dimensão das estratégias, o que cria ambiguidade quando o escore é usado para representar "quanto a pessoa camufla", sem distinguir motivo nem efeito.

Crítica empírica recente

Cook, Hull e Mandy (2024) e a confusão de níveis

A revisão crítica publicada por Cook, Hull e Mandy em 2024 (em Clinical Psychology Review, DOI 10.1016/j.cpr.2024.102383, com o título "Camouflaging in autism: A systematic review") consolidou um problema que vinha sendo discutido informalmente havia anos: o CAT-Q, ao operar predominantemente no nível das estratégias observáveis, mistura motivos, estratégias e efeitos. Quem responde alto no CAT-Q pode estar reportando estratégias bem treinadas em contexto de risco real (camuflagem compulsória, com custo psíquico elevado), estratégias estratégicas usadas em contexto profissional específico (camuflagem voluntária, com custo gerenciável), ou simplesmente comportamento social aprendido sem componente autista específico. A escala não separa esses casos, e os desfechos clínicos associados ao escore alto variam dramaticamente entre eles.

Existing measures of camouflaging primarily index behavioural strategies, conflating these with underlying motivations and psychological impact, Cook, Hull e Mandy, 2024. A escala não é o construto.

A consequência prática para desenho de pesquisa é direta. Um estudo que correlaciona escore CAT-Q com depressão ou ansiedade está, na melhor das hipóteses, capturando associação entre "uso intenso de estratégias compensatórias" e sofrimento psíquico, não entre "camuflagem como construto teórico" e desfecho clínico. A interpretação que confunde os dois níveis é, hoje, sinalizada por revisores críticos como problema metodológico recorrente na literatura. Pesquisa nova que pretende contribuir originalmente precisa endereçar explicitamente qual nível está medindo, e idealmente triangular com instrumento qualitativo ou com escala adicional que capture motivos e efeitos.

Risco de viralização

O que acontece quando o construto vaza do laboratório

Camuflagem é, em maio de 2026, um dos termos mais populares de TEA adulto em rede social brasileira. O CAT-Q tem versão online não validada disponível em sites de divulgação, e autodiagnósticos com base na escala circulam livremente. Isso produz três tipos de viés para pesquisa empírica brasileira. Primeiro: amostra que se recruta online com edital "estudo sobre camuflagem em adultos autistas" tem viés de autosseleção forte, com sobre-representação de adultos recém-identificados, recrutados de comunidade online onde o construto já circula como identidade. Segundo: o respondente pode estar respondendo com base em representação social brasileira da camuflagem, que não é idêntica à formulação de Hull et al., e não com base em sua experiência efetiva. Terceiro: o construto entra em conversa com vocabulário clínico paralelo (máscara social, falso self, persona) cujos limites teóricos não coincidem com o de camuflagem autista, e o respondente faz a sobreposição sem instrumento para distinguir.

Isso não invalida pesquisa com CAT-Q em adulto brasileiro. Mas torna o desenho metodológico mais exigente. A entrevista clínica de triagem ganha peso. A discussão dos viéses de recrutamento precisa ser explícita. E o resultado de qualquer estudo precisa ser apresentado com a humildade epistemológica que o construto, em sua versão atual e em ambiente cultural brasileiro, exige.

Adaptação cultural

O que adaptação cultural responsável exige

A literatura de adaptação transcultural de instrumentos psicométricos é madura e tem método publicado. Beaton et al. (2000, DOI 10.1097/00007632-200012150-00014) descreve o protocolo clássico em seis estágios: tradução por dois tradutores independentes, síntese, retrotradução, comitê de especialistas, pré-teste cognitivo com população-alvo, submissão dos autores originais. Para o CAT-Q em pt-BR, alguns itens carregam carga cultural específica que exige atenção redobrada. A noção de contato visual, por exemplo, varia em expectativa social entre culturas anglófonas e brasileira. A expressão facial considerada socialmente esperada em uma reunião profissional em Londres não é a mesma em São Paulo. A palavra "máscara" em pt-BR carrega ressonâncias da pandemia recente que podem interferir na compreensão do item.

Para além da tradução, o estudo psicométrico completo precisa estabelecer estrutura fatorial em amostra brasileira (a estrutura três-fatorial da versão original replica?), invariância de medida com a versão original (o item significa a mesma coisa em pt-BR e em inglês?), confiabilidade teste-reteste em intervalo razoável, e validade convergente com instrumentos já traduzidos. Nada disso é instantâneo. A construção desse dossiê psicométrico para o CAT-Q em pt-BR é, por si só, uma tese de mestrado em avaliação psicológica, não passo preparatório a outro estudo. Quem precisa de CAT-Q em pt-BR para projeto maior precisa ou ser o autor do estudo de adaptação, ou esperar pela publicação de quem está fazendo.

O que cuidado significa, neste caso

Três posturas que sustentam uso responsável do construto

A primeira postura é a do reconhecimento do nível em que se opera. Pesquisa com CAT-Q mede comportamento autorelatado de estratégia compensatória. Mede também, em parte, percepção do próprio respondente sobre o que conta como camuflagem. Reconhecer isso não enfraquece o estudo, ao contrário, ancora-o. Estudo brasileiro que medir "uso de estratégias compensatórias autorrelatadas em amostra de adultos identificados como autistas" produz contribuição clara. Estudo que afirmar "medimos camuflagem autista em adultos brasileiros" exige precisão maior, e provavelmente mais instrumentos.

A segunda é a humildade temporal. O construto de camuflagem em 2026 não é o mesmo de 2019. O modelo de Hull e colaboradores foi refinado, a crítica de Cook et al. (2024) pôs alguns pressupostos em revisão, e a próxima geração de instrumentos provavelmente publicada entre 2027 e 2029, vai endereçar especificamente a separação entre estratégias, motivos e efeitos. Quem está desenhando estudo agora tem duas opções razoáveis: trabalhar com a versão atual reconhecendo seus limites, ou esperar pela próxima geração. Nenhuma das duas é erro. A terceira posição comum, usar a versão atual ignorando os limites, é a que produz literatura que envelhece mal.

A terceira é o cuidado cultural. Camuflagem em adulto autista brasileiro não é o mesmo fenômeno descrito em coorte inglesa não porque o cérebro seja diferente, mas porque o ambiente social em que a camuflagem opera é diferente. Para o adulto autista que cresceu em ambiente brasileiro de classe média metropolitana, as exigências de contato visual, de calorosidade social, de tolerância a interrupção, de proximidade física são outras. A camuflagem que se desenvolve nesse ambiente tem gramática própria. Pesquisa brasileira que ignore essa especificidade vai produzir dado estranhamente similar ao dado inglês, o que, paradoxalmente, é sinal de viés metodológico, não de universalidade do construto.

Bibliografia

Referências citadas

  • Beaton, D. E., Bombardier, C., Guillemin, F., & Ferraz, M. B. (2000). Guidelines for the process of cross-cultural adaptation of self-report measures. Spine, 25(24), 3186–3191. DOI: 10.1097/00007632-200012150-00014.
  • Cook, J., Hull, L., & Mandy, W. (2024). Camouflaging in autism: A systematic review. Clinical Psychology Review, 102383. DOI: 10.1016/j.cpr.2024.102383.
  • Hull, L., Mandy, W., Lai, M. C., Baron-Cohen, S., Allison, C., Smith, P., & Petrides, K. V. (2019). Development and validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q). Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(3), 819–833. DOI: 10.1007/s10803-018-3792-6.
  • Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). "Putting on my best normal": Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534. DOI: 10.1007/s10803-017-3166-5.
  • Lai, M. C., Lombardo, M. V., Ruigrok, A. N., Chakrabarti, B., Auyeung, B., Szatmari, P., Happé, F., & Baron-Cohen, S. (2017). Quantifying and exploring camouflaging in men and women with autism. Autism, 21(6), 690–702. DOI: 10.1177/1362361316671012.

Próximas leituras no portal

Conexões com o restante do portal

O verbete sobre camuflagem apresenta o construto em formato mais clínico, voltado para quem chega ao tema sem familiaridade com a literatura. O ensaio sobre o que mudou na pesquisa de autismo adulto em 2025 situa a camuflagem entre as linhas internacionais que se firmaram nos últimos dois anos. O texto sobre lacunas da pesquisa brasileira detalha por que a validação do CAT-Q em pt-BR é uma das janelas mais valiosas para mestrado em avaliação psicológica. A área de profissionais reúne escalas validadas para uso clínico responsável.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).