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Larissa Caramaschi

Casais neurodivergentes

Mapa sensorial do casal

Patrícia chega ao consultório com uma queixa que parecia, à primeira leitura, sobre televisão. Faz meses que toda noite, depois do jantar, há discussão miúda entre ela e o marido — sobre o volume, sobre a luz da sala que ele apaga e ela acende, sobre o cobertor que ele puxa e ela não suporta, sobre o sabão em pó novo da promoção. Cada discussão isolada é triviável. Em conjunto, têm consumido toda a energia que sobraria para ternura ao fim do dia. O marido recebeu, há um ano, laudo de TEA nível 1 de suporte aos 47, depois de duas décadas de psicoterapia por exaustão sustentada. Patrícia veio à terapia de casal porque, segundo as palavras dela, ou eu aprendo a ler isso de outro jeito ou eu vou embora. O mapa sensorial entra exatamente neste ponto, antes de qualquer interpretação clínica mais elegante.

Em uma frase só, o que é o mapa. Duas folhas idênticas, doze categorias sensoriais cada uma, uma para cada parceiro. Cada folha é preenchida em paralelo, ao longo de duas semanas, em ambiente de baixa demanda, sem que um veja o que o outro está escrevendo. Os dois mapas chegam à sessão e são lidos lado a lado, sem julgamento moral, sem comparação valorativa. Marcam-se as colisões. A lista de colisões vira matéria de trabalho do casal nas semanas seguintes. Seis meses depois, faz-se a revisão. Não é instrumento diagnóstico. Não é tabela psicométrica validada. É descrição compartilhada da paisagem em que os dois sistemas nervosos do casal precisam coabitar cotidianamente.

De onde a folha veio

Dunn na base, interocepção no acréscimo

A literatura que sustenta o exercício tem dois eixos. O primeiro é o modelo de perfil sensorial de Winnie Dunn, terapeuta ocupacional na Universidade do Kansas, que organizou em quatro padrões clássicos, registro baixo, busca, sensibilidade, evitação, o modo como cada cérebro processa estímulo. O instrumento que Dunn desenvolveu, o Sensory Profile Adult, tem validação psicométrica e é usado em pesquisa e em clínica ocupacional há mais de duas décadas. O mapa do casal não substitui o Sensory Profile, uma das primeiras coisas que digo em sessão é que, se houver indicação de avaliação ocupacional completa, ela acontece em paralelo, com profissional habilitado. O que o mapa faz é diferente. Toma cinco domínios sensoriais clássicos cobertos por Dunn, visão, audição, tato, olfato, paladar, e os reorganiza em vocabulário cotidiano, em escala que cabe no diálogo do casal.

O segundo eixo é mais recente e ainda menos consolidado, e por isso entra no mapa com cuidado. Interocepção é a percepção dos sinais internos do próprio corpo, fome, sede, temperatura, tensão muscular, batimento cardíaco, vontade de ir ao banheiro, sinais viscerais de ansiedade. O trabalho de Eve Quattrocki e Karl Friston, publicado em 2014, propôs uma ponte entre autismo e interocepção a partir do modelo de inferência ativa, e abriu um campo de pesquisa que Jennifer Murphy, em Londres, e Sarah Garfinkel, no University College London, ajudaram a estruturar ao longo dos últimos dez anos. A literatura que se acumula desde então não autoriza, ainda, conclusões fechadas sobre interocepção em adultos autistas, o que se sabe é que a dissociação entre sinal corporal e nomeação emocional é frequente, e que esse padrão tem consequência clínica concreta. No mapa do casal, isso aparece nas três últimas categorias — interocepção, dor, fome e sede, que cobrem dimensões internas que costumavam ficar de fora do trabalho de casal padrão.

As doze categorias

O que entra em cada folha

A folha começa pelos cinco domínios sensoriais clássicos. Luz — intensidade, temperatura de cor, fonte preferida, tolerância a fluorescente. Som, volume habitual de conforto, tolerância a ruído de fundo, sensibilidade a frequências específicas, peso do som como presença ou como invasão. Temperatura, faixa em que se dorme, faixa em que se trabalha, faixa em que se faz sexo, custo de operar fora dessa faixa. Textura, tecido de roupa, lençol, sofá, etiqueta, toque na pele de quem toca e de quem é tocado. Olfato, perfume, sabão, comida, produto de limpeza, fontes neutras e fontes aversivas. Paladar entra junto do olfato, com pequenas perguntas próprias sobre temperatura de comida, textura alimentar e mistura de sabores na mesma garfada.

Depois entram três domínios menos conhecidos da clínica de casal, mas centrais para regulação. Propriocepção, que é o sentido da posição do próprio corpo no espaço e da pressão sobre a pele, perguntas sobre abraço apertado versus toque leve, sobre necessidade de cobertor pesado, sobre o automovimento de oscilar ou balançar que para uns regula e para outros incomoda. Vestibular, que é o sentido do movimento da cabeça em relação à gravidade, perguntas sobre carro, escada rolante, viagem longa, transporte em horário de pico. E interocepção, com as perguntas mais difíceis de responder, porque a maior parte das pessoas nunca foi convidada a respondê-las antes: como você percebe sede, como você percebe fome, quanto tempo leva para você notar que está com frio, quando você percebe que está bravo, quando você percebe que está cansado, a que altura da cadeia o sinal interno chega à sua consciência verbal.

As três últimas categorias atravessam todas as anteriores. Dor, porque cada cônjuge tem padrão próprio de sentir e sinalizar dor, e os padrões raramente conversam. Fome e sede, porque dias de alta carga social ou laboral deslocam o sinal corporal de modo previsível em uns e imprevisível em outros. Mudança e previsibilidade, que aparece aqui também, embora pertença parcialmente à camada cognitiva, porque o custo de transição não anunciada tem dimensão sensorial direta, principalmente em quem tem perfil de baixa tolerância à incerteza. O conjunto cobre, sem ambição enciclopédica, o que costuma colidir na rotina compartilhada de um casal em que um dos dois é adulto autista nível 1.

Como o mapa é usado em sessão

Quatro tempos do trabalho

O primeiro tempo é o preenchimento paralelo. Cada parceiro leva a folha para casa, em momento de baixa demanda, nunca imediatamente depois de uma briga, e preenche ao longo de duas semanas, com pausas, em cadência que permite observação atenta do próprio corpo em situações reais. Não é tarefa de quinze minutos. Tem gente que preenche metade da folha numa noite e precisa esperar três dias para descobrir, em situação concreta, que tem opinião sobre fluorescente em banheiro de hotel que nunca tinha articulado em voz alta. A regra desse tempo é estrita: o que está na folha do outro não se vê até a sessão. Sem comparação prévia. Sem ajuste de resposta para parecer mais compatível.

O segundo tempo é a leitura conjunta. Os dois mapas chegam à sessão e abrem-se lado a lado, categoria por categoria. A regra é dura: nenhum dos dois julga o que o outro descreveu como errado, exagerado ou dramático. A leitura é descritiva, não corretiva. Em casais em que o ressentimento acumulado é alto, a parte mais difícil do exercício é exatamente essa, quem passou anos achando que o outro fazia drama com cheiro de sabão precisa, por uma sessão inteira, ouvir o outro descrevendo cheiro de sabão sem corrigir. Quem passou anos achando que o outro era insensível ao próprio desconforto sensorial precisa, por uma sessão, ouvir o outro descrever desconforto sem relativizar. É difícil. É também onde o exercício começa, clinicamente, a funcionar.

O terceiro tempo é a marcação das colisões. Onde os perfis convergem, anota-se com discrição, o casal já estava operando bem ali, mesmo sem saber, e raramente é nesses pontos que o conflito mora. Onde eles colidem, luz da sala, temperatura do quarto, ritmo de mudança, faixa olfativa, cadência de transição entre tarefas, anota-se com mais cuidado. A lista de colisões é o que vira matéria de trabalho do casal nas semanas seguintes. Em uns, vira contrato escrito explícito sobre como dividir ambientes. Em outros, vira pauta de tradução relacional. Em quase todos, vira a primeira lista que o casal tem, depois de anos, do que precisa negociar em chave operacional em vez de chave moral.

O quarto tempo é a revisão semestral. Perfil sensorial não é estático. Estresse acumulado, gestação, menopausa, doença crônica, mudança de cidade, perda recente, alteração de medicação, qualquer um desses fatores desloca o mapa. A revisão semestral evita que o casal opere com mapa desatualizado e tem efeito clínico próprio: cada revisão torna explícito que os dois estão, de fato, cuidando da paisagem em que vivem juntos. Em casais com diagnóstico recente, especialmente do parceiro autista, a primeira revisão costuma ser mais densa que o preenchimento original, é nela que aparece o vocabulário que ainda não existia seis meses antes.

Duas cenas do que costuma aparecer

O que o mapa torna visível

Volto a Patrícia. A discussão noturna sobre o volume da televisão, dita por ela na primeira sessão, era leitura razoável do conflito conjugal. Ele aumentava o volume porque estava distraído. Ela pedia para abaixar, ele abaixava, vinte minutos depois o volume voltava ao mesmo nível. Quando os dois mapas chegaram à sessão, três meses depois, apareceu algo que nenhum dos dois tinha verbalizado antes. Na folha de som dele, ele tinha escrito: tenho tolerância baixíssima a vozes humanas em volume alto, principalmente na faixa de frequência das vozes femininas em programa de televisão diurna. Na folha de som dela, ela tinha escrito: preciso de ruído de fundo constante para não ouvir os pensamentos da cabeça. Não era briga de volume. Eram duas necessidades sensoriais opostas operando no mesmo cômodo, sem mediação. A solução prática que o casal encontrou em três sessões, dois ambientes, fones em um dos casos, escolha conjunta de programa em outras, não teria aparecido sem a folha. A briga sobre televisão tinha, literalmente, doze anos. A solução, três semanas.

Outro casal trouxe, na folha de propriocepção, uma colisão diferente. Ela tinha escrito: gosto de chegar em casa e ser abraçada por trinta segundos, isso me organiza o fim do dia. Ele tinha escrito: chego em casa com casaco grosso, demoro vinte minutos para tirar o casaco e ter pele exposta para o contato físico. Por anos, ela tinha lido a hesitação dele em recebê-la na porta como frieza. Por anos, ele tinha lido o avanço dela como desrespeito ao tempo dele. Em sessão, o que apareceu, em frase que nenhum dos dois tinha conseguido formular em casa, foi que a colisão estava no casaco de lã, não no afeto. Trocaram o ritual. Ele tira o casaco no carro antes de entrar, ela espera trinta segundos no sofá em vez de na porta. O abraço de chegada existe há quatro meses. Não cura o casamento. Devolve à entrada da casa uma cena que tinha virado pesada por motivo errado.

O que o mapa não é

Três cuidados clínicos com o exercício

Primeiro cuidado: o mapa não é instrumento diagnóstico. Não substitui avaliação multiprofissional, não autoriza atribuir diagnóstico de TEA a quem responde de um certo modo, e não tem as propriedades psicométricas do Sensory Profile Adult de Dunn ou de instrumentos equivalentes. É exercício clínico de consultório, e tem o valor que tem porque é discutido em sessão, com mediação terapêutica, em casal que está em trabalho ativo. Aplicado isoladamente, sem essa moldura, perde a maior parte do efeito que tem em sessão.

Segundo cuidado: o mapa pode ser usado mal. Casais que entram no exercício com dinâmica acumulada de culpabilização tendem a transformá-lo em nova arma. Viu, eu tinha razão sobre o barulho. Agora você está admitindo que era exagero. Quando o terapeuta percebe esse uso, o trabalho recua um passo: antes de aprofundar o mapa, é preciso desfazer a premissa adversarial. Tradução do que o corpo de cada um precisa é incompatível com placar de quem tinha mais razão.

Terceiro cuidado: há casos em que o mapa, depois de preenchido com honestidade dos dois lados, mostra que as duas configurações sensoriais e relacionais não conseguem coabitar sem custo excessivo a um ou aos dois. Em casos assim, o mapa não é fracasso clínico. É ferramenta que ajudou o casal a tomar uma decisão difícil com mais clareza e menos ressentimento mútuo. Em consultório, separação cuidadosa também é resultado terapêutico legítimo, embora nem sempre seja o resultado esperado quando o casal procura ajuda.

Leitura próxima no portal

Onde esta leitura continua

A peça sobre diferenças invisíveis no casal neurodivergente cobre as outras quatro camadas em que o conflito conjugal costuma se sustentar, processamento emocional, comunicação implícita versus explícita, previsibilidade e necessidade relacional. A peça sobre dupla empatia aprofunda a moldura conceitual de Damian Milton (2012) e as replicações empíricas que sustentam a leitura clínica usada aqui.

Quando o exercício pede acompanhamento clínico

Se a descrição acima reconhece uma rotina que vem arrastando há tempo no seu casal e você considera iniciar acompanhamento clínico, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia pela USP, Inscrição CRP em atualização.

Conhecer formas de contato

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

Os nomes e cenas que aparecem ao longo do texto são composições clínicas, agregados de configurações recorrentes em consultório, sem correspondência a paciente identificável.