O que é, com palavras lentas
Três deslocamentos contidos na palavra "tradução"
Há três deslocamentos contidos na palavra tradução, e os três organizam o trabalho clínico. O primeiro deles é o reconhecimento de que nenhum dos cônjuges está falando uma linguagem errada, ambas as gramáticas são legítimas, embora opacas uma para a outra. O segundo deslocamento diz respeito à responsabilidade da mediação: ela não recai sobre quem "tem o problema", recai sobre o casal, e a clínica oferece o terceiro lugar a partir do qual a passagem pode ser desenhada. O terceiro deslocamento mira o resultado: a meta não é que uma das duas gramáticas absorva a outra, e sim que ambas continuem existindo dentro de um sistema partilhado em que conseguem se encontrar sem ferir.
Essa terminologia separa o método de duas tradições adjacentes que orbitam a clínica do autismo adulto e que parecem, de longe, semelhantes. De um lado, o treino de habilidades sociais herdado da pedagogia comportamental assume que existe uma gramática-padrão, a neurotípica, e que cabe ao paciente autista aprendê-la, ainda que isso cobre o preço descrito por Laura Hull e colegas, no instrumento de camuflagem publicado em 2018 no Journal of Autism and Developmental Disorders, e pela equipe de Sarah Cassidy em estudos sobre risco psíquico associado a mascaramento prolongado. De outro lado, certo discurso de autoadvocacia mais radical desloca a responsabilidade inteira para o cônjuge neurotípico, exigindo aceitação sem tradução, postura que tende a esvaziar o NT no silêncio até o vínculo romper. A tradução relacional recusa os dois extremos: os dois cônjuges contribuem, os dois ajustam, os dois ganham vocabulário novo.
A base teórica é o problema da dupla empatia, proposto por Damian Milton em texto publicado em Disability and Society em 2012, segundo o qual o desencontro entre pessoas autistas e neurotípicas não é déficit social unilateral, mas assimetria mútua entre dois sistemas que se decodificam mal. A formulação ganhou base experimental ao longo da década seguinte: o já citado estudo de Catherine Crompton e equipe, em Autism em 2020, sobre transmissão de informação em cadeias homogêneas e mistas; a etnografia de Brenna Heasman e Alex Gillespie, na mesma revista em 2018, sobre como autistas se descrevem em interações intra-grupo; o ensaio de Rebecca Mitchell, Elizabeth Sheppard e Sarah Cassidy, em revisão de 2021, sobre o que a clínica perde quando insiste em corrigir só um lado. A tradução relacional é, na prática, a operacionalização cotidiana dessas leituras no consultório de casal, feita sob lente sistêmica clássica, que é a referência metodológica a partir da qual leio o ciclo de vida familiar, na esteira de Monica McGoldrick e Betty Carter.