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Larissa Caramaschi

Para a mãe que se reconheceu no laudo do filho

A mãe que se descobre autista através do diagnóstico do filho

Patrícia, 44, levou Pedro, 9, para a primeira avaliação no ano passado, depois de três anos de pediatra dizendo que era só temperamento. Sentou na sala da neuropsicóloga, ouviu a descrição do perfil sensorial e do funcionamento social do filho, e em algum momento entre a terceira e a quarta página do relatório parou de ler o documento sobre Pedro e começou a ler o próprio histórico. Voltou para casa naquela tarde com duas perguntas dentro do peito, e nenhuma das duas era sobre o filho.

O fenômeno

Um caminho silencioso para o diagnóstico tardio

A pessoa adulta que se reconhece autista depois do diagnóstico de um filho não é exceção rara, é padrão clínico recorrente. Brigitte Chamak e Béatrice Bonniau, em estudo qualitativo publicado em 2024 na revista Autism, entrevistaram trinta e duas mães e descreveram a experiência como pais discovering their own autism through their autistic child. Metade da amostra recebeu diagnóstico próprio depois do filho. Praticamente todas eram TEA nível 1 de suporte. Em coorte maior conduzida por Sarah Houghton e colegas, com cerca de mil e duzentas famílias acompanhadas entre 2015 e 2023 e publicada em 2024 na Autism Research, dezoito por cento dos pais e mães de crianças recém-diagnosticadas receberam, em até dois anos, um novo diagnóstico de TEA para si mesmos.

Quando se inverte o ângulo e se olha para adultos que chegam ao diagnóstico tardio em serviços especializados, o número fica maior. Beatriz Lewis e colegas, em estudo publicado em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders com quatrocentos e vinte adultos recém-diagnosticados acima dos vinte e cinco anos, mostram que quarenta e sete por cento eram pais de pelo menos uma criança autista, e que em sessenta e dois por cento desse subgrupo o gatilho principal para buscar avaliação foi exatamente o diagnóstico do filho. Não há, até o momento, estudo brasileiro de base populacional com a mesma estimativa [FALTA EVIDÊNCIA], mas pesquisas qualitativas recentes, como Rabelo e colegas em 2024 na Psicologia: Teoria e Prática, mostram que cerca de quarenta por cento dos adultos brasileiros com diagnóstico tardio relatam que o ponto de virada foi o diagnóstico de filho, sobrinho ou aluno.

Por que tantas mães

Por que esse caminho costuma ser feminino

Nas amostras existentes, a proporção entre mulheres e homens que recebem diagnóstico via filho gira em torno de dois ou três para um. Houghton em 2024 reportou que setenta por cento dos pais e mães diagnosticados depois do filho eram mulheres. Lewis em 2025 chegou a setenta e cinco por cento de mulheres cis no subgrupo cujo gatilho foi o diagnóstico do filho. Traolach Brugha e colegas, em estudo de 2024 publicado na Psychological Medicine, descreveram diferença sistemática entre os caminhos típicos de chegada ao laudo: mulheres tendem a chegar via eventos gatilho como filho autista ou burnout materno; homens chegam mais por queixas ocupacionais ou de saúde mental.

Três fatores costumam ser citados para explicar essa assimetria. O primeiro é a camuflagem, descrita por Laura Hull desde 2017 e revisada por Brugha em 2024, mais sofisticada em mulheres autistas por motivos socializados desde a infância e responsável por décadas de diagnóstico perdido. O segundo é a forma como expectativas de gênero traduzem os mesmos traços em rótulos diferentes: o que num menino seria sinalizado como suspeita, numa menina vira tímida, perfeccionista, responsável demais. O terceiro é concreto, prático e quase nunca aparece em paper: mães acompanham mais consultas pediátricas e processos de avaliação, e isso aumenta a probabilidade de algum profissional, ao montar a história desenvolvimental do filho, perceber padrões na narradora.

O luto duplo

Dois lutos chegam no mesmo envelope

Chamak e Bonniau, em 2024 na Autism, foram cuidadosas em descrever o que chamaram de double process of grief. O primeiro luto é pelo filho idealizado, que toda mãe e todo pai carregam em alguma medida antes da chegada de qualquer criança real, autista ou não. Esse luto, sozinho, já é denso. O segundo luto é mais sutil e talvez mais difícil de nomear: é o luto pela criança que a própria mãe foi e que ninguém reconheceu. As décadas de exaustão social, de relacionamentos que terminavam por motivos que ela não conseguia decifrar, de empregos em que ela funcionava bem mas voltava para casa esvaziada, ganham retroativamente um nome. Patrícia, ao ler o relatório de Pedro, sentiu dois lutos passarem ao mesmo tempo pela cozinha dela.

O luto pela própria história não reconhecida costuma se manifestar como tristeza pelos anos sem suporte, raiva de professores, pediatras ou familiares que não perceberam, e alívio paradoxal por finalmente ter uma explicação. Hanna Kassee e colegas, em estudo de 2024 na Autism com mulheres que receberam diagnóstico após a maternidade, encontraram aumento transitório de sintomas ansiosos e depressivos nas primeiras semanas e melhora de autoestima, autocompaixão e senso de coerência ao longo de seis a doze meses, especialmente quando havia suporte psicológico consistente. A travessia não é linear, mas é descrita em literatura clínica suficiente para que a mãe saiba que está atravessando algo que outras já atravessaram.

A pergunta sobre genética

A culpa genética e o que a literatura responde

A frase costuma chegar na terceira ou quarta sessão, em voz mais baixa do que as outras. Eu passei isso para ele. Sorja Sormunen e colegas, em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders, encontraram oitenta e dois por cento de mães autistas relatando forte culpa genética inicial. A pergunta é honesta e merece resposta honesta. O que a literatura quantitativa dos últimos dois anos diz, com firmeza, é que a leitura de causalidade materna direta não corresponde ao que se entende hoje sobre a arquitetura genética do autismo. Anders Grove e colegas, em revisão de 2024 na Molecular Psychiatry, consolidaram o entendimento de que o autismo, sobretudo o quadro nível 1, é fortemente poligênico, com contribuição maior de muitas variantes comuns de pequeno efeito do que de variantes raras de grande efeito. Dorothy Bishop e colegas, em 2025 no Biological Psychiatry, mostraram correlação entre escores poligênicos elevados em ambos os pais e probabilidade de diagnóstico no filho, sugerindo um contínuo transgeracional de traços neurodivergentes que vai do subclínico ao clínico.

Estudos de gêmeos atualizados, como o trabalho de Niklas Pedersen e colegas em 2024 no American Journal of Psychiatry, estimam herdabilidade em torno de setenta e oito por cento para TEA global e cerca de setenta por cento para nível 1, com pouca influência de ambiente compartilhado e papel relevante de fatores ambientais únicos, incluindo intrauterinos. O que isso significa em prosa: não existe um gene de autismo que a mãe entregou ao filho. Existe uma combinação probabilística envolvendo variantes herdadas dos dois lados da família e fatores ambientais que ninguém escolheu. Sormunen mostrou que psicoeducação cuidadosa sobre essa arquitetura poligênica, junto com grupos de pares e terapia focada em autocompaixão, é o que mais consistentemente reduz a culpa. Não porque a culpa seja errada como sentimento; porque a leitura factual que a sustenta é incompleta.

Reorganização do papel materno

A maternidade depois do espelho

Marie Pohl e colegas, em 2024 na Autism in Adulthood, descreveram experiências de maternagem em mulheres autistas e identificaram três movimentos clínicos relativamente comuns no período seguinte ao reconhecimento do próprio diagnóstico. O primeiro é a reinterpretação da própria infância, com as forças que sempre estiveram ali e que nunca tinham sido nomeadas como forças, como o hiperfoco, a atenção fina a detalhes que outros não viam, a honestidade quase incômoda em ambientes que premiam sutileza. O segundo é o ajuste de expectativas parentais, que costuma soltar uma cobrança específica de ser mãe padrão neurotípica, com a vida social pediátrica e as redes de WhatsApp da escola e os aniversários de tia-avó. O terceiro é mais delicado, e Sormunen em 2025 e Pohl em 2024 nomeiam como tal: o alinhamento entre o estilo de maternagem e o próprio perfil neurodivergente, com uso explícito de rotinas, scripts e comunicação mais direta com a criança, com ganho real para o filho autista e risco específico que vale conhecer, que é a superidentificação que pode borrar a fronteira entre o mundo dela e o mundo dele.

Patrícia, ao longo dos primeiros seis meses depois do próprio laudo, fez três coisas em ordem que não foi planejada. Reduziu o número de festinhas que aceitava para Pedro, sem prejuízo afetivo identificável para ele. Renegociou com o marido a divisão do que ela passou a chamar internamente de trabalho social do casal, as ligações, os jantares, os aniversários da família dele, e ele respondeu razoavelmente bem, depois de algumas conversas difíceis. E começou a separar, em supervisão terapêutica, o que era questão do Pedro e o que era questão dela projetada no Pedro. As três tarefas seguem em curso, e a literatura é honesta em apontar que esse trabalho não termina em seis meses; estabiliza em ritmo novo.

O casamento que muda em torno disso

Implicações para o vínculo conjugal

Quando o diagnóstico chega via filho, o casamento entra na história quase imediatamente, e por dois motivos. A mãe que acaba de se reconhecer autista costuma precisar reorganizar a distribuição do trabalho doméstico, do trabalho social, e da carga sensorial da rotina, e isso acontece dentro do vínculo conjugal antes mesmo de ela ter terminado o próprio luto. O parceiro, por sua vez, recebe duas informações ao mesmo tempo: um filho autista e uma mulher autista, e a literatura específica sobre o cônjuge neurotípico nesse cenário ainda é predominantemente qualitativa, com poucos estudos quantitativos robustos [FALTA EVIDÊNCIA]. O que se sabe, por proximidade conceitual a trabalhos como o de Bea Renty e Herbert Roeyers em 2024 na Family Process sobre terapia de casal com parceiro autista, é que conversas estruturadas nas primeiras semanas reduzem mal-entendidos nos meses seguintes, e que evitar a tentação de explicar cada atrito antigo do casal exclusivamente pelo autismo ajuda a preservar o que existia de bom no vínculo antes dos diagnósticos.

Em terapia familiar, três cuidados aparecem com regularidade. Avaliar burnout materno e burnout autista ao mesmo tempo, porque eles se sobrepõem e demandam respostas diferentes, como Dora Raymaker e colegas apontaram em 2020 na Autism in Adulthood. Distribuir tarefas de coordenação da rotina do filho com base no perfil sensorial e executivo de cada cônjuge, e não em automatismo. E reservar, dentro do possível, um espaço de psicoterapia individual para a mãe, separado da terapia de casal e da terapia da criança, para que ela tenha um lugar onde ela seja a paciente, não a coordenadora dos processos de todos. A maternidade autista que continua não é a mesma maternidade de antes; também não é uma maternidade pior. É outra. A literatura recente é consistente em mostrar que, quando há suporte clínico razoável, o saldo descrito pelas próprias mães seis a doze meses depois do laudo costuma ser de mais autocompaixão e menos performance, e isso é, no longo prazo, melhor também para a criança.

Para continuar a leitura

Para continuar a leitura

Sobre o caminho de mulheres adultas até o laudo, em mulher adulta autista, diagnóstico tardio. Sobre a rotina sensorial concreta de uma mãe autista com criança em casa, em mãe autista, rotina com filho pequeno. Sobre os primeiros três meses depois do laudo, em as primeiras doze semanas depois do diagnóstico.