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Larissa Caramaschi

Trilha de terapia individual adaptada

Regulação sensorial em consultório e no atendimento online

Antes de a sessão começar, o adulto autista nível 1 já gastou energia. Subiu uma escada com eco, esperou em uma sala com luz fluorescente piscando no canto do olho, ouviu duas conversas cruzadas vindas da recepção, sentiu a almofada do sofá em um tecido sintético que arranha de leve a parte de trás do braço. No atendimento online, a tela brilha forte, o áudio entra com chiado, o ambiente da própria casa às vezes traz mais ruído do que o consultório. O setting, físico ou virtual, não é cenário. É parte ativa da intervenção clínica.

O modelo de Dunn e o que ele descreve

O modelo de Dunn e o que ele descreve

Winnie Dunn, terapeuta ocupacional norte-americana, propôs nos anos noventa um modelo para descrever como cada pessoa responde aos estímulos sensoriais do ambiente. O modelo cruza dois eixos. No primeiro, está o limiar neurológico para registrar o estímulo, que pode ser mais baixo ou mais alto. No segundo, está a estratégia de enfrentamento da pessoa, que pode ser passiva ou ativa. Do cruzamento, surgem quatro padrões: busca sensorial, evitação sensorial, sensibilidade sensorial e registro reduzido. O Adolescent/Adult Sensory Profile, publicado por Dunn em 2002, continua sendo o instrumento mais usado para mapear esses padrões em adultos.

Em 2025, um estudo de validade convergente publicado em periódico indexado mostrou que o A/ASP mantém boa correlação com o SPM-2 Adult, instrumento mais recente que expande a avaliação para nove domínios sensoriais. Os quadrantes de baixa registro, sensibilidade e evitação do modelo de Dunn aparecem associados de forma consistente. Em adultos autistas, revisões dos últimos dois anos confirmam que padrões atípicos em pelo menos um sistema sensorial estão presentes na ampla maioria dos casos, e que esses padrões persistem ao longo da vida sem se diluir com a idade.

Tomchek e Dunn, em trabalhos conjuntos sobre perfil sensorial no autismo, mostram que a combinação mais comum no adulto autista nível 1 é hiperreatividade auditiva e tátil somada a registro reduzido para sinais corporais internos. Isso explica, em parte, por que tanta gente chega ao consultório descrevendo sobrecarga com lâmpada fluorescente, com som de ar-condicionado, com etiqueta de roupa na nuca, e ao mesmo tempo demora a notar que está com fome, com sede ou com a bexiga cheia. São dois lados do mesmo perfil, e o consultório precisa lidar com os dois.

O consultório físico que pesa menos

O consultório físico que pesa menos

A luz aparece em primeiro lugar. Lâmpada fluorescente com leve pisca, que o cérebro neurotípico filtra sem notar, é citada por estudos qualitativos como um dos estímulos mais consistentemente relatados como sobrecarregantes por adultos autistas. A substituição por lâmpada de espectro contínuo, com temperatura de cor mais quente, idealmente em torno de dois mil setecentos kelvin, e por luz indireta vinda de luminária baixa, em vez de fonte no teto, reduz a carga visual sem deixar a sala escura demais. O paciente entra na sala, e a primeira coisa que o corpo dele percebe é que ali se respira melhor.

O som vem logo em seguida. Ar-condicionado com motor antigo, relógio de parede analógico que faz tique no silêncio, conversa da recepção atravessando porta mal vedada. Cada um desses pequenos ruídos cobra atenção que deveria estar disponível para a sessão. Salas com porta acústica simples, tapete que absorve o eco, ar-condicionado moderno e silencioso, e ausência de música ambiente costumam funcionar melhor do que a tentativa comum de mascarar barulho com som suave de natureza. O som ambiente acrescenta camada que o adulto autista tende a ouvir e processar.

A distância física entre as duas cadeiras é o ajuste mais subestimado. O enquadre clássico de psicologia adulta sugere cerca de um metro e meio entre cadeira do terapeuta e cadeira do paciente, em ângulo de noventa graus para evitar o confronto frontal direto. Para adulto autista, vale conversar sobre isso na primeira sessão. Algumas pessoas pedem mais distância, outras preferem ângulo mais aberto, outras preferem cadeira que permita virar levemente o corpo. Móvel pesado é vantagem. Cadeira que range, gira ou desliza ao menor movimento aumenta ruído tátil de fundo. Tecidos lisos, sem rugosidade, com almofada firme, costumam ser bem aceitos.

O atendimento online tem outra ergonomia

O atendimento online tem outra ergonomia

No atendimento online, autorizado pela Resolução CFP nº 11/2018 e cada vez mais frequente desde 2020, a regulação sensorial muda de natureza. O paciente está em casa, no escritório, em uma sala emprestada, e o ambiente dele entra na conta. A tela brilha. O áudio chega com pequenos atrasos. O rosto do terapeuta aparece em escala que não é a escala da convivência real. Muita gente relata que cansa mais na sessão online do que na presencial, e os relatos qualitativos publicados desde 2022 tendem a confirmar essa percepção em adultos autistas.

Alguns ajustes diminuem essa carga. Câmera posicionada um pouco abaixo da linha dos olhos, em vez de fixada acima da tela, evita a sensação de estar sendo encarado de cima. Tela em modo escuro, com brilho reduzido a algo entre quarenta e sessenta por cento, alivia a sobrecarga visual ao longo da sessão de cinquenta minutos. Fones com isolamento passivo, sem cancelamento ativo, dão melhor controle da escuta sem introduzir o leve zumbido eletrônico que o cancelamento ativo às vezes produz. O paciente pode desligar a própria imagem na tela dele se isso ajudar, mantendo a câmera ligada para o terapeuta. Essa pequena escolha de interface alivia o que se costuma chamar de fadiga de autoimagem.

Vale combinar uma pausa breve no meio da sessão de cinquenta minutos, especialmente nas primeiras três ou quatro vezes que casal terapeuta e paciente se encontram. Três minutos sem tela, de costas para o computador, com olhar para a parede ou para a janela, devolvem capacidade de atenção que estava se esgotando em silêncio. Não é interrupção do trabalho clínico. É parte da clínica adaptada. Em algumas situações, a sessão pode ser dividida em dois encontros mais curtos na semana, em vez de um único bloco de cinquenta minutos. O ritmo é negociável.

Ritmo, intervalos e a chegada à sala

Ritmo, intervalos e a chegada à sala

A chegada importa. O paciente que sobe a escada do prédio comercial chega com a janela atencional dele mais estreita do que o paciente que veio direto do trabalho de casa. Cinco minutos sentado em uma sala de espera silenciosa, sem música, sem televisão ligada, sem revistas em pilha brilhante, fazem diferença real na primeira parte da sessão. Se a recepção não comporta esse silêncio, vale combinar com o paciente que ele entra direto na sala de atendimento e o terapeuta o recebe ali. É um pequeno ajuste de fluxo, sem custo, que dá retorno claro.

Dentro da sessão, o ritmo se ajusta também. Bloco temático de quinze a vinte minutos, seguido de uma pausa breve para respirar, costuma funcionar melhor do que o fluxo contínuo de cinquenta minutos sem corte. A pausa não precisa ser anunciada como pausa terapêutica. Pode ser o terapeuta servindo água, checando o horário, escrevendo uma nota. O paciente entende o ritmo intuitivamente depois de duas ou três sessões e passa a usar esse espaço para reorganizar internamente o que está sendo dito.

Estímulos reguladores trazidos pelo paciente são bem-vindos. Objeto tátil de manuseio discreto, fones que o paciente pega na entrada e devolve na saída, garrafa de água que ele segura durante a fala. Em consultórios mais estruturados, alguns terapeutas mantêm uma pequena cesta com fidget de espuma firme e tecido de microfibra, sem brilho, à disposição. O cuidado é não transformar isso em ritual obrigatório nem em sinal externo de diagnóstico. É opção, como almofada extra, e quem quiser usar usa.

Para continuar a leitura

Para continuar a leitura

Quem quiser entender como a linguagem dentro da sessão também se ajusta encontra, neste portal, a leitura sobre literalidade na sessão clínica com adulto autista nível 1. Para o paciente que está terminando de organizar o que esperar do começo do processo, vale a leitura paralela sobre clareza de objetivos clínicos com adulto autista nível 1. Quem reconhece sobrecarga sensorial no cotidiano além do consultório pode ler o verbete sobre meltdown para localizar o vocabulário clínico que descreve essa experiência.