Sobre como o corpo recebe estímulo
Cada sistema nervoso tem um jeito de receber o mundo
A pesquisadora americana Winnie Dunn, terapeuta ocupacional, propôs em meados dos anos 1990 um modelo que organizou de maneira útil o que a clínica já vinha observando há décadas pessoas diferentes recebem o mesmo estímulo de jeitos diferentes. Algumas registram tudo, com intensidade alta; outras registram pouco e procuram mais; algumas evitam o estímulo, outras o buscam. Esse jeito de receber o mundo, que a literatura chama de perfil sensorial, é uma característica relativamente estável de cada pessoa. Não é defeito. É configuração. E em adultos autistas nível 1 de suporte, ele costuma aparecer com algumas marcas recorrentes embora, é preciso dizer, nenhuma dessas marcas isolada prove ou descarte nada.
Vale dizer também, antes de qualquer lista, que muita gente que vai reconhecer parte do que vem abaixo não é autista. Há pessoas neurotípicas com sensibilidade sensorial particular, há pessoas com TDAH cujo perfil sensorial se sobrepõe a vários itens, há pessoas que tiveram experiências de vida que tornaram o sistema nervoso mais alerta. A presença de sinais sensoriais é informação útil. Não é um teste.
Cenas que muita gente reconhece
A etiqueta da roupa, a festa, o supermercado iluminado
Comecemos pelo tato. Muitas pessoas relatam, em algum momento da infância, dificuldade séria com etiqueta de roupa nas costas, costura na meia, certo tipo de elástico na cintura. Não era frescura. Era informação sensorial registrada com intensidade que a maioria das crianças próximas não registrava. Esse padrão tende a continuar na vida adulta, você sabe exatamente quais tecidos consegue usar oito horas, e quais começam a incomodar depois das três da tarde. Você cortou a etiqueta de quase toda peça nova. Tem dias em que precisa trocar de roupa duas vezes porque a primeira ficou estranha de um jeito que você não consegue explicar.
A audição costuma trazer cenas próprias. O supermercado grande no fim da tarde, com luz fluorescente, música de ambiente, anúncio em alto-falante, crianças chorando, o som do freezer, pessoas com perfil sensorial mais aberto saem dali precisando de uma hora de silêncio para se recompor. Restaurante cheio em sábado à noite é o mesmo problema com outra roupa. Quase ninguém ouve cada som por separado; um sistema nervoso assim, sim. Em um almoço de família com quinze pessoas falando junto, você pode estar conversando normalmente com a prima do lado e ainda assim registrando, em paralelo e contra a vontade, a conversa de três pessoas do outro lado da mesa. Esse processamento custa. No fim do dia, você está cansada não pelas pessoas, pelas quatorze conversas paralelas que o sistema nervoso registrou em silêncio.
A luz é a terceira que costuma aparecer. Iluminação fluorescente cintila em uma frequência que nem todo mundo percebe conscientemente, mas que muitas pessoas com perfil sensorial particular registram como um zumbido visual, difícil de descrever em voz alta. Lojas grandes, hospitais, salas de aula, escritórios antigos. Você prefere lâmpada quente em casa. Você fecha persianas em horários em que outras pessoas não pensariam em fechar. Você lembra com clareza estranha de salas em que estudou anos atrás, e consegue dizer se a luz era boa ou não.
Cheiro, sabor, temperatura, textura de comida. Há quem sempre tenha tido uma lista grande de comidas que não come não por restrição, por incômodo sensorial real. Há quem precise tirar perfume de visita quando ela chega. Há quem durma melhor com peso em cima do corpo, e quem precise ter a coberta tirada do pé. São combinações pessoais. O ponto não é que cada item desses prove alguma coisa. É que, quando muitos deles aparecem juntos e formam um mapa coerente que acompanha a pessoa desde criança, vale levar esse mapa a sério como informação clínica útil.
O que se acumula em silêncio
O cansaço de quinta-feira não vem de quinta-feira
Há uma observação simples que muitos adultos descrevem, quase com a mesma redação, no consultório. O cansaço de quinta-feira não vem de quinta-feira. Vem de segunda. Vem de uma semana inteira em que o sistema nervoso esteve registrando informação sensorial sem parar, sem descontar. Em geral, quem reconhece em si a maior parte dos sinais descritos acima também reconhece um certo padrão semanal de fadiga acumulada, segunda e terça aguenta, quarta começa a pesar, quinta o sono já está irregular, sexta termina com recolhimento total no sábado. Sábado e domingo, em casa, em silêncio. Se a vida não permite essa janela de recolhimento, o sistema costuma cobrar de outras formas — dor de cabeça, irritabilidade, intolerância maior que o esperado a coisas pequenas.
Esse padrão semanal não é doença. É o jeito de o sistema nervoso administrar carga acumulada de estímulo que ele registrou com intensidade maior do que a média. Conhecer esse próprio padrão já costuma reorganizar pequenas decisões, em que dia da semana marcar consulta, em que fim de semana topar o almoço da família, quanto tempo reservar de silêncio em casa entre uma demanda social e outra. Em muita gente, esse mapeamento sozinho já melhora a vida sem que precise haver qualquer diagnóstico envolvido.
Quando faz sentido procurar profissional
Quando os sinais merecem mais do que mapa pessoal
Algumas situações sugerem que vale, sim, conversar com um profissional, não para correr atrás de rótulo, e sim porque o entendimento do que está acontecendo pode mudar significativamente o que se faz a respeito. Quando a fadiga social vem custando saúde, sono crônico ruim, irritação que começou a aparecer em vínculos importantes, queixas físicas recorrentes sem causa orgânica clara, vale buscar avaliação. Quando o trabalho está virando inviável apesar de competência técnica reconhecida, e o que pesa é o ambiente sensorial em si, vale buscar avaliação. Quando há memórias antigas que voltam com força a partir desse reconhecimento sensorial, cenas de infância em que você foi descrita como difícil, em que você se sentia diferente de um jeito que não conseguia nomear, vale buscar avaliação. Quando o casal está em conflito porque um lado não entende por que o outro precisa de silêncio depois do jantar, vale, no mínimo, uma conversa orientada.
Avaliação de autismo em adulto é trabalho criterioso, feito por profissional com formação específica, geralmente em processo de várias sessões, incluindo entrevista detalhada sobre vida atual e sobre infância, aplicação de instrumentos validados, e por vezes complementação com outras áreas como neuropsicologia. Não se faz por questionário online, e não se faz em uma única consulta. Profissional sério vai falar isso desde o primeiro contato. Tem havido oferta crescente, e nem toda oferta é confiável; perguntar pela formação específica, pelos instrumentos usados e pelo tempo do processo é razoável.
Há, por fim, uma observação que merece terminar este texto. Reconhecer sinais sensoriais em si não obriga ninguém a buscar diagnóstico, e o trabalho com perfil sensorial, adaptar a casa, negociar o ambiente de trabalho, organizar a semana com janelas de descompressão — tem valor por si só, com ou sem laudo. Algumas pessoas chegam ao consultório, mapeiam o próprio perfil sensorial com calma, fazem ajustes na rotina, e isso é o que estavam procurando. Outras seguem para avaliação completa. As duas direções são legítimas, e nenhuma delas exige pressa.
Próximas leituras
Para quem decidiu seguir e considerar avaliação, a página de orientação diagnóstica descreve, sem pressa, os passos razoáveis. Quem reconhece em si o cansaço acumulado descrito acima costuma se identificar também com o verbete sobre camuflagem social no modelo CAT-Q porque parte da fadiga sensorial se mistura com a fadiga do esforço social sustentado. Para casais em que esse padrão sensorial é fonte de conflito, vale o exercício do mapa sensorial do casalque organiza, lado a lado, o que pesa para cada um.
Se este texto fez você reconhecer algo que vinha sentindo há tempo e considera começar uma conversa clínica, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar.
Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).