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Larissa Caramaschi

Conceito-chave · 06

Hipersensibilidade sensorial

DSM-5-TR · critério B.4 · modelo dos quatro quadrantes de Dunn

Hipersensibilidade sensorial, neste texto, é a reatividade neurológica aumentada a estímulos do ambiente, luz, som, textura, cheiro, temperatura, dor, movimento, em uma ou várias modalidades, sustentada ao longo da vida e descrita no critério B.4 do DSM-5-TR como parte do quadro diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista. A leitura clínica segue o modelo de Winnie Dunn (1997, 2001), que decompõe o perfil sensorial em quatro quadrantes operacionais em vez de tratar a hipersensibilidade como traço binário único.

Definição

Perfil sensorial, não rótulo único

O modelo de Dunn (1997) recusa a leitura binária, "a pessoa é hipersensível ou não é", e propõe uma leitura matricial. A resposta sensorial varia conforme dois eixos: o limiar neurológico (baixo ou alto, ou seja, quanto estímulo a pessoa precisa para registrar a sensação) e a estratégia de autorregulação (ativa, que faz alguma coisa em resposta, ou passiva, que recebe sem agir). Os quatro quadrantes resultantes são, no vocabulário deste texto: busca, evitação, sensibilidade, baixo registro.

A leitura clínica deste texto acrescenta uma nuance que a literatura recente (Robertson e Baron-Cohen, 2017) sustenta: o adulto autista nível 1 frequentemente apresenta perfis diferentes em modalidades diferentes, sensibilidade auditiva combinada com busca propriocetiva, por exemplo. E o perfil é dinâmico: depende de carga acumulada, sono, ciclo hormonal, contexto. A clínica útil mapeia perfis por modalidade e por contexto, não rotula a pessoa.

Os quatro quadrantes do modelo de Dunn

Busca, evitação, sensibilidade, baixo registro

  • Busca sensorial

    Limiar neurológico alto · Autorregulação ativa

    A pessoa procura ativamente estímulos sensoriais, movimento, textura específica, sabor intenso, música em volume alto controlado. Não é hiperatividade; é compensação para um sistema nervoso que registra estímulos rotineiros como insuficientes para sustentar engajamento. Em adulto autista nível 1, pode aparecer como necessidade de exercício físico intenso, preferência por comida apimentada ou crocante, predileção por banho muito quente ou muito frio.

  • Evitação sensorial

    Limiar neurológico baixo · Autorregulação ativa

    A pessoa evita ativamente estímulos que o seu sistema nervoso registra como excessivos. Pode aparecer como recusa de ambientes barulhentos, intolerância a etiqueta de roupa, evitação de luz fluorescente, recusa de abraço de surpresa. Quando o ambiente social não permite a evitação (escritório aberto, festa de família), a pessoa paga o custo em fadiga, irritabilidade e fragmentação cognitiva.

  • Sensibilidade sensorial

    Limiar neurológico baixo · Autorregulação passiva

    A pessoa registra estímulos sutis que outros não notam, barulho de fundo do refrigerador, cheiro do perfume de um colega no andar de cima, leve flutuação da temperatura ambiente, sem ter recursos sustentados para evitá-los. É o perfil clinicamente mais associado ao desgaste por sobrecarga sensorial cumulativa em adulto autista nível 1 que sustenta camuflagem em ambiente público.

  • Baixo registro

    Limiar neurológico alto · Autorregulação passiva

    A pessoa registra menos do que o esperado, pode não perceber fome, sede, frio, dor menor, mudança de expressão facial do interlocutor. Em adulto autista nível 1, sobrepõe-se com frequência ao perfil interoceptivo atípico, e responde pela frase clássica do consultório: "eu só percebo quando já estou no limite".

Origem científica

Winnie Dunn, 1997, o ponto de virada teórico

O modelo conceitual foi formulado por Winnie Dunn, terapeuta ocupacional norte-americana, em 1997, em artigo seminal no periódico Infants & Young Children. A ampliação teórica veio em 2001, em The Sensations of Everyday Life (American Journal of Occupational Therapy, DOI: 10.5014/ajot.55.6.608). A aplicação ao Transtorno do Espectro Autista foi sistematizada por Tomchek e Dunn (2007), com replicação em adultos por Tavassoli et al. (2014, Autism, DOI: 10.1177/1362361313477246). A revisão de Robertson e Baron-Cohen (2017) em Nature Reviews Neuroscience consolidou o estado da arte da neurobiologia da percepção sensorial em autismo.

A nuance científica recente importa para a clínica: a literatura entre 2020 e 2026 desloca a leitura de "hipersensibilidade como traço fixo" para "perfil sensorial dinâmico e contexto-dependente". Adulto autista nível 1 não tem o mesmo perfil sensorial às nove da manhã de uma terça e às onze da noite de um sábado depois de festa de família. A reatividade depende da carga acumulada, e a clínica honesta reconhece o ritmo, não fixa o rótulo.

Manifestações em adulto autista nível 1

Três cenas que aparecem no consultório

  • O escritório aberto sustentado

    O adulto autista nível 1 com perfil de sensibilidade auditiva (limiar baixo, autorregulação passiva) sustenta o dia de trabalho em open space "tolerando" o ruído acumulado, conversa de fundo, telefone, ar-condicionado, teclado, microondas. Tolerar não é não sentir. É processar, em paralelo à tarefa, um fluxo sensorial contínuo que sabota recursos cognitivos. O custo cumulativo aparece como exaustão noturna sem causa visível, irritabilidade conjugal de domingo à noite, e burnout autístico de longo prazo (Raymaker et al., 2020).

  • A camuflagem sensorial em festa de família

    A pessoa autista adulta em festa de família costuma sustentar simultaneamente perfis sensoriais contraditórios, sensibilidade auditiva (volume da conversa coletiva), evitação ativa (afastar-se discretamente para a cozinha), busca compensatória (segurar um copo gelado, mexer numa colher), enquanto performa engajamento social. A literatura recente (Tavassoli et al., 2014) confirma a presença sustentada do perfil em adultos, e a leitura clínica honesta nomeia a fadiga pós-festa como custo neurológico, não como traço moral.

  • Roupa, beijo, perfume, gatilhos cotidianos

    Etiqueta de roupa intolerável, beijo na bochecha de surpresa que produz reação física, perfume do colega que desorganiza a tarde, vibração contínua do celular esquecido na mesa. Cada microgatilho consome recursos de regulação que o cérebro autista nível 1 dedica em paralelo ao trabalho cognitivo da rotina. A pessoa adulta autista frequentemente identifica o desconforto como traço de personalidade, "sou chata", "sou difícil", e raramente o reconhece como diferença de processamento neurológico até receber o diagnóstico tardio.

Aplicação clínica

Mapear, adaptar, sustentar, não treinar tolerância

O trabalho clínico em hipersensibilidade sensorial não tenta eliminar a reatividade, tenta nomeá-la, mapeá-la por modalidade e construir adaptações ambientais sustentáveis. Em terapia individual adaptada, isso significa abrir o setting clínico para regulação sensorial: luz ajustável, ruído reduzido, distância negociada com o paciente. A sessão é parte ativa do tratamento, não cenário.

Em terapia de casal neurodivergente, o instrumento principal é o mapa sensorial do casal, exercício clínico que torna explícitos os gatilhos de cada cônjuge e onde eles colidem na rotina compartilhada. Em terapia familiar sistêmica, o mapa sensorial coletivo organiza o uso dos cômodos da casa, o ritmo da rotina familiar e os pactos sobre festas, viagens e visitas. O princípio clínico é claro: a hipersensibilidade não é a parte que precisa mudar, o ambiente é que precisa ser negociado.

Conexões no glossário

Conceitos vizinhos

A leitura completa deste texto pressupõe quatro conexões no glossário. O texto sobre regulação neurossensorial articula o substrato polivagal da resposta autonômica em sobrecarga sensorial. O texto sobre interocepção descreve a dimensão interna do mesmo framework de processamento sensorial. O texto sobre shutdown vs meltdown nomeia os desfechos neurofisiológicos da sobrecarga sensorial cumulativa. E o texto sobre burnout autista descreve o custo crônico de sustentar camuflagem sensorial em ambiente público por décadas.

Bibliografia

Referências verbatim

  • Dunn, W. (1997). The impact of sensory processing abilities on the daily lives of young children and their families: a conceptual model. Infants & Young Children, 9(4), 23–35.
  • Dunn, W. (2001). The sensations of everyday life. American Journal of Occupational Therapy, 55(6), 608–620. DOI: 10.5014/ajot.55.6.608.
  • Tomchek, S. D., & Dunn, W. (2007). Sensory processing in children with and without autism. American Journal of Occupational Therapy, 61(2), 190–200. DOI: 10.5014/ajot.61.2.190.
  • Tavassoli, T., Miller, L. J., Schoen, S. A., Nielsen, D. M., & Baron-Cohen, S. (2014). Sensory over-responsivity in adults with autism spectrum conditions. Autism, 18(4), 428–432. DOI: 10.1177/1362361313477246.
  • Robertson, C. E., & Baron-Cohen, S. (2017). Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, 18(11), 671–684. DOI: 10.1038/nrn.2017.112.
  • American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Text Revision (DSM-5-TR). Critério B.4 do diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (F84.0).

Próximo passo

Se este texto ressoa com sua experiência

Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia (USP), Inscrição CRP em atualização.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).