A cena
Ele continuou em silêncio por algo entre vinte minutos e duas horas. A primeira coisa que aconteceu, internamente, antes mesmo do silêncio se tornar visível, foi um afastamento sensorial. O som da voz dela passou de informação ininteligível para algo parecido com pressão física na lateral da cabeça. As palavras dela perderam contorno, viraram massa contínua, e o esforço para separar a frase de agora da frase de cinco segundos atrás ficou impossível. Em seguida vieram dois movimentos paralelos no corpo dele, a respiração ficou superficial e o campo visual encolheu. Quando ela elevou o tom mais uma vez para perguntar você está me ouvindo, o sistema dele já tinha entrado em um modo que ele nunca conseguiu nomear bem na vida adulta, um modo em que a linguagem para a fala sai do alcance, em que abrir a boca exige uma quantidade de coordenação motora que naquele instante não está disponível, em que mesmo o gesto de fazer sim com a cabeça custa um trabalho que parece impossível de organizar.
Ela, do lado de fora dessa cena interna, viu silêncio. Viu silêncio depois de ela ter elevado a voz. Viu silêncio depois de uma briga. Viu o olhar dele para o prato. O corpo dela leu castigo. O corpo dela leu desprezo. O corpo dela leu, mais fundo, eu não importo o suficiente para você se esforçar para responder, e essa leitura veio com toda a memória acumulada de outras discussões em que o mesmo silêncio apareceu. Ela se levantou, levou a louça para a pia com mais barulho do que precisava, e, em algum momento da meia hora seguinte, foi para o quarto fechar a porta. Ele continuou na mesa, ainda sem conseguir mover-se com fluência, e quando finalmente a fala voltou, talvez umas duas horas depois, ela já tinha dormido com raiva, e ele dormiu no sofá porque achou que isso era o que ela queria. Os dois acordaram cansados, e nenhum dos dois sabia, com clareza, o que tinha acontecido entre a sopa e a noite.
A leitura tradicional
A leitura clássica de uma cena assim, na literatura de terapia de casal, segue um caminho muito conhecido. A partir do trabalho do laboratório de John e Julie Gottman, o silêncio em meio à discussão recebeu o nome de stonewalling, e foi catalogado, junto com crítica, desprezo e defensividade, como um dos quatro cavaleiros do apocalipse conjugal, configurações que predizem ruptura do vínculo em estudos longitudinais. Stonewalling, nessa moldura, é interpretado como retirada estratégica do parceiro, frequentemente do parceiro masculino em casais heteronormativos, em situações de excesso de carga emocional. A literatura é sólida nessa descrição e oferece intervenções razoáveis para parte significativa da população atendida. O problema clínico aparece quando essa moldura é aplicada, sem ajuste, a um casal em que o cônjuge silencioso é uma pessoa autista adulta nível 1 de suporte, porque o que ela está vendo, ao olhar o silêncio dele, não é stonewalling, e tratar como stonewalling produz iatrogenia.
Stonewalling, na descrição original de Gottman, é uma forma de regulação afetiva por retirada, em que o cônjuge se afasta da intensidade emocional para se proteger e, no movimento, deixa o outro sozinho com a carga. Shutdown autístico é fenômeno categorialmente diferente. Não é estratégia. Não é, no plano da intenção, escolha. É colapso de função executiva sob sobrecarga sensorial e cognitiva sustentada, um modo no qual a fala se torna inacessível, a coordenação motora fina se desorganiza, e o sistema nervoso entra em estado equivalente, em termos fenomenológicos, ao que Brett Heasman e Alex Gillespie descreveram em estudo qualitativo publicado na revista Autism em 2018 (doi:10.1177/1362361317708287) como necessidade de retirada para reorganização interna em adultos autistas durante interações que excedem o limiar sensorial. Ler o shutdown como castigo é ler o ato de proteção como agressão, e essa leitura, repetida ao longo de anos, esvazia o casal de qualquer reparação possível, porque o conjuge NT acumula evidência moral de que está sendo punida em silêncio, e o conjuge autista acumula evidência de que mesmo o pouco que consegue oferecer naquele momento é lido como falta.
O que a dupla empatia reorganiza
A tese da dupla empatia, proposta por Damian Milton em texto publicado em 2012 na revista Disability and Society (doi:10.1080/09687599.2012.710008), oferece a moldura conceitual que permite separar shutdown de stonewalling sem precisar relativizar nenhum dos dois. Milton sustenta que o ruído comunicacional entre pessoas autistas e neurotípicas não é déficit unilateral, é incompatibilidade entre duas gramáticas de processamento social que se decodificam mal mutuamente. Catherine Crompton, com Danielle Ropar e Sue Fletcher-Watson, publicou em 2020 na revista Autism (doi:10.1177/1362361320919286) o estudo experimental que deu base empírica à tese, mostrando que a comunicação se degrada por desemparelhamento de tipo neurológico, não por déficit individual. A leitura clínica que se extrai desses dois marcos para a cena do shutdown é direta: o silêncio dele não é uma fala invertida sobre o vínculo, é uma resposta fisiológica ao desemparelhamento crescente de canais comunicacionais sob escala de intensidade.
Aplicada na cena, essa moldura desloca o trabalho clínico em três direções simultâneas. A primeira é a renomeação do fenômeno. Em consultório, em ambiente protegido, o casal aprende a chamar shutdown de shutdown, e essa nomeação retira o silêncio do campo da intenção moral e o coloca no campo da função neural. A segunda direção é a descrição da rampa. O shutdown não aparece do nada, ele tem precursor, e o trabalho de tradução relacional desenha, com o casal, quais sinais corporais antecedem o shutdown daquela pessoa específica, ombros que caem, olhar que abaixa, respiração que se encurta, perda da entonação interrogativa. Quando a parceira aprende a ler esses sinais, ela ganha agência diferente sobre a escalada. A terceira direção, mais delicada, é a renegociação da intensidade. Não é pedir para ela falar baixo. É descrever, junto, como cada um chega ao seu limite, e desenhar um sinal que qualquer um dos dois pode emitir para pausar a conversa antes do colapso, sem que esse sinal seja lido como evasão.
Como o casal sai dessa cena na próxima vez
Depois de meses de trabalho, eles desenharam, em consultório, um protocolo de duas peças que parece simples e custou meses para ser construído. A primeira peça é uma palavra de pausa, escolhida pelos dois, que qualquer um pode dizer quando sente que a conversa está se aproximando do limiar dele. A palavra não é negociação. É veto temporário. Quando dita, a conversa para, ela toma um copo de água, ele vai para a janela do quarto por dez ou quinze minutos, e os dois sabem, sem precisar repactuar, que a conversa volta no momento em que ele puder voltar. A segunda peça é o que acontece depois do shutdown completo, quando, apesar do sinal, a rampa foi rápida demais. Eles combinaram que ele não precisa pedir desculpas pelo silêncio, porque o silêncio não foi mensagem para ela. Ela combina com ela mesma que vai ler o silêncio como o que ele é, colapso temporário de função, e não punição. E os dois combinaram que, quando ele puder voltar a falar, a primeira frase dele pode ser apenas voltei, sem precisar produzir, naquele momento, explicação articulada do que aconteceu por dentro.
O acordo não impediu todos os shutdowns dos meses seguintes. Houve recidiva. Houve noite em que ela esqueceu o protocolo e elevou a voz. Houve dia em que ele não conseguiu dizer a palavra de pausa a tempo. Mas o número de noites em sofá caiu, e o sedimento de ressentimento, que tinha quase quinze anos de casamento acumulado, começou a diminuir. Quando a leitura para de ser eu não importo para você e passa a ser ele entrou em shutdown e vai voltar quando o sistema puder, a cena deixa de fechar o casal e passa a abrir, ainda que devagar. Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018), Inscrição CRP em atualização.
Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).