O luto que aparece sem aviso
O luto que aparece sem aviso
Muitas mães chegam ao consultório, semanas depois de receber a notícia, dizendo que estão felizes pelo filho mas que andam tristes sem saber o porquê. A tristeza tem nome. Ela aparece porque o diagnóstico tardio mexe com a história inteira. A festa de cinco anos em que sua filha não quis abraçar ninguém, a briga de adolescência em que seu filho explodiu por causa de uma camisa, a viagem em família que terminou com alguém chorando no banheiro do hotel, o casamento que não deu certo, o emprego que não durou. Cada uma dessas cenas, agora, pede uma releitura. E releitura, em uma mãe, costuma vir junto com uma pergunta dura.
Eu podia ter percebido antes? A resposta clínica para essa pergunta é honesta e direta. Quase certamente, não. A pesquisa sobre autismo em adultos hoje, especialmente em mulheres e em pessoas que aprenderam a camuflar cedo, mostra que mesmo os consultórios mais qualificados costumavam errar o diagnóstico nas décadas em que você criou seus filhos. Os critérios vigentes naquela época não enxergavam autismo nível 1 com fluência. A literatura brasileira atual aponta que a idade média de diagnóstico em adultos costuma estar entre os 25 e os 40 anos, depois de muitos contatos prévios com a saúde mental em que ninguém suspeitou. Você não viu porque praticamente ninguém via.
A culpa que não cabe
A culpa que não cabe
Autismo é uma configuração neurológica. Não é causada por estilo parental, por amamentação, por trauma de mudança, por divórcio, por trabalho da mãe, por escola severa, por leite, por vacina. A pesquisa de neurogenética e neurodesenvolvimento aponta para fatores constitutivos do próprio sistema nervoso, presentes desde os primeiros meses de vida e expressos de forma única em cada pessoa. Aquela ideia antiga, que circulou em meados do século passado, de que mães geladas causavam autismo, foi descartada pela ciência há décadas. Quem ainda repete isso, em roda de família ou em comentário casual, está usando informação desatualizada e fora de evidência.
O que costuma ajudar é separar duas coisas. Uma é o reconhecimento de que algumas escolhas educativas, na época em que foram feitas, podem ter sido difíceis para a criança autista que crescia ali, sem que ninguém soubesse que era autista. Não é raro a mãe se lembrar de momentos em que insistiu em uma roupa, em uma festa, em uma comida, com a melhor das intenções, e que hoje ela entende terem custado mais do que ela imaginou na ocasião. A outra coisa, separada, é entender que isso não a torna responsável pelo autismo do filho. São camadas diferentes, e separá-las é parte do trabalho desses primeiros meses.
O vínculo, agora, em outra chave
O vínculo, agora, em outra chave
Algumas filhas e alguns filhos, depois do diagnóstico, pedem espaço. Param de ligar com a mesma frequência. Recusam o almoço do domingo. Pedem que a família leia algum texto antes de voltarem a conversar. Isso pode ser interpretado, equivocadamente, como rejeição. Quase nunca é. É reorganização interna. A pessoa está revendo a própria vida e precisa fazer isso sem o olhar de quem participou da história inteira. O vínculo não rompeu. Ele entrou em uma fase em que pede menos contato e mais previsibilidade.
O que costuma reaproximar é simples e custa muito pouco. Avisar antes de aparecer. Mandar mensagem curta, com a informação no começo, sem rodeios. Aceitar respostas mais demoradas. Evitar perguntas como ainda bem que você está bem ou estou com saudade, quando vai me visitar. Trocá-las por convites concretos, com horário, lugar e duração combinados antes. Em consultório, chamamos esse movimento, com toda a calma do mundo, de previsibilidade afetiva. Não é distância. É um jeito de acolher que cabe melhor.
Cuidar de você também
Cuidar de você também
A literatura tem dado nome também ao que acontece na família de origem do adulto autista depois do diagnóstico. Pais e mães relatam alívio por uma explicação coerente, e também tristeza, raiva pontual com profissionais antigos que não suspeitaram, cansaço por sustentar uma posição nova sem saber muito bem onde se apoiar. Pedir uma escuta para si, com uma psicóloga ou um psicólogo, não é tirar atenção do filho. É evitar que esse processo seja carregado em silêncio. Mães que cuidam de si nos primeiros meses costumam, três ou quatro meses depois, estar em melhores condições de cuidar do vínculo.
Em algum momento dos próximos meses, a conversa com seu filho ou sua filha vai retomar. Não vai ser igual a antes. Será mais honesta, em boa parte das vezes. Algumas coisas que estavam implícitas vão precisar ser ditas. Outras, que estavam ditas em excesso, podem descansar. Esse novo desenho do vínculo é o que costuma ficar, nas conversas em consultório, quando se olha em retrospecto para esse primeiro ano. Vale a pena chegar lá.
Para continuar a leitura
Para continuar a leitura
Para entender o que está acontecendo dentro do seu filho ou da sua filha nos primeiros meses depois do laudo, o texto o que muda quando você descobre que é autista ajuda. Para um cuidado próprio, com a chance de conversar em consultório, o agendamento fica aberto, inclusive em atendimento online.