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Larissa Caramaschi

Texto para os primeiros meses depois do laudo

O que muda quando você descobre que é autista

Não muda tudo, e quem promete que muda costuma estar vendendo alguma coisa. Mas muda o suficiente para você notar diferença na forma de atravessar quarta-feira. Este texto fala desses meses iniciais, aqueles em que a palavra "autista" ainda parece nova quando você a diz sobre você mesma, e em que pequenas coisas cotidianas começam a se reorganizar de um jeito que você não esperava.

O ambiente, primeiro

O barulho que você não sabia que estava ouvindo

Na maioria dos casos, o primeiro lugar em que a vida começa a se reorganizar não é a identidade, é o ambiente. A pessoa que acabou de receber o diagnóstico começa, em algum momento entre a segunda semana e o terceiro mês, a perceber barulhos que vinha ouvindo sem registrar. A geladeira da cozinha, que sempre teve aquele ruído contínuo. A lâmpada do banheiro, que zumbe baixinho. O ventilador do escritório, que sempre esteve ali. De repente o sistema nervoso, agora que tem permissão interna para escutar essas coisas como reais, escuta. Não é que o barulho ficou maior. É que a censura de tê-lo sentido afrouxou.

Acontece o mesmo com a luz. Muita gente compra um abajur menor no segundo mês depois do diagnóstico, troca a lâmpada fria por uma quente, fecha a cortina no escritório que sempre ficou meio aberta. Pequenas coisas. Esse rearranjo silencioso, que de fora parece capricho ou frescura, tem nome clínico, está descrito na literatura sobre processamento sensorial em adultos autistas há mais de duas décadas, com especial influência do trabalho de Winnie Dunn sobre os padrões individuais de resposta sensorial. O que muda em você não é a sensibilidade, que sempre foi essa. É a licença para tratá-la como informação operacional, e não como sinal de deficiência de caráter.

A agenda começa a mexer pouco depois. Uma reunião que sempre vinha sexta às quatro da tarde, porque era o horário que encaixava no chefe, começa a parecer especialmente difícil em retrospecto. Você percebe que costumava chegar em casa segunda-feira já contando os dias para esse compromisso, e que sexta à noite era recolhimento total. Algumas pessoas passam a negociar horários diferentes. Outras passam a deixar os sábados livres porque entenderam que sábado, depois de sexta, não era preguiça, era recuperação. Não é regra. É cada agenda lendo a si mesma com uma lente que não tinha.

As pessoas perto

Colegas, parceiro, mãe, em três tempos diferentes

A relação com colegas de trabalho costuma mudar em silêncio, antes mesmo de eles saberem de qualquer coisa. Você percebe que sempre detestou a hora do café coletivo, e durante anos foi por gentileza. Você percebe que aquele colega que fala piada com voz alta tomou um lugar grande da sua semana. Não é raiva nova. É reorganização do mapa interno do escritório. Algumas pessoas decidem, depois de pensar, contar para a chefe; outras decidem que ainda não vale a pena. Os dois caminhos têm custos. Contar abre a porta para acomodação, mas também para olhares de desconfiança. Não contar preserva privacidade, mas mantém a explicação do cansaço no registro antigo, que era de inadequação pessoal.

Com o parceiro, o tempo é outro. Se ele soube no mesmo dia que você, é provável que tenha entrado em uma reorganização paralela à sua, e aqui o mais saudável, no consultório, tem sido o casal trabalhar isso lado a lado e não em paralelas não comunicantes. Há cenas que voltam ao casal com luz nova. Aquela briga de janeiro do ano passado, em que você ficou três horas trancada no quarto e ele leu como punição, vira um exemplo de saturação que o casal, agora, consegue nomear. Aquela vez em que ele falou "estou ansioso" no caminho do jantar de família e você não respondeu, vira um exemplo de um pedido implícito que não chegou explicitado. Isso não resolve sozinho. Mas começa a tirar a categoria moral de cima de cenas que vinham sendo, há muito tempo, lidas como prova de afastamento.

Com a mãe, o tempo é o mais lento. A mãe, em geral, é também a pessoa em quem o trauma do reconhecimento adiado bate mais forte. Há mães que ouvem o diagnóstico da filha adulta e choram porque entendem retroativamente todas as vezes em que pediram à filha que se esforçasse mais, que fosse mais sociável, que não fizesse tanto drama. Há mães que rejeitam o diagnóstico com energia desproporcional, porque aceitá-lo significaria reler décadas de criação sob uma lente desconfortável. Os dois movimentos são humanos. Nenhum deles deveria precisar ser administrado pela filha adulta recém-diagnosticada nos primeiros três meses. Se a relação com a mãe é o ponto mais sensível, em geral é razoável adiar essa conversa, sem culpa, para um momento em que você tenha mais terra firme por baixo.

A palavra "autista" sobre você mesma

Pessoa autista, e não pessoa com autismo

Uma das coisas que muda mais devagar é o jeito de a pessoa falar de si para si mesma. No começo, quase todo mundo começa pela construção que aprendeu nos manuais antigos — "tenho autismo", "fui diagnosticada com TEA". Aos poucos, quando o assunto começa a aparecer em conversas espontâneas, a maioria das pessoas escorrega naturalmente para "eu sou autista". A literatura tem nome para essa diferença. Monique Botha, em uma série de trabalhos com Eilidh Cage, Lorcan Kenny e colegas, mostrou que adultos autistas, quando consultados em pesquisa de comunidade, preferem majoritariamente a construção identity-first — "pessoa autista", à construção pessoa-primeiro, "pessoa com autismo". O argumento da comunidade é simples: autismo não é doença que se carrega ao lado, é uma forma de o sistema nervoso operar. A literatura clínica brasileira tem caminhado na mesma direção, e os manuais de imprensa de comunidades autistas adultas no Brasil têm refletido esse uso.

Isso não é regra de cartilha. É preferência informada por quem está dentro da experiência. Há pessoas que continuam usando "pessoa com autismo" e estão bem com isso, há pessoas que rejeitam ambas as construções. O que importa clinicamente é que, nos primeiros meses, o vocabulário com que você se nomeia ainda está se acomodando, e ele não precisa estar fechado em janeiro para servir em maio. Você pode experimentar. Pode dizer "sou autista" em voz alta dentro de casa e ver como soa no ouvido. Pode ainda preferir construções mais descritivas, como "estou no espectro" ou "tenho diagnóstico de nível 1". Tudo isso é trabalho de autorreferência em curso.

Há uma coisa, no entanto, que aparece com regularidade nas primeiras sessões e merece ser dita. Quase todo adulto recém-diagnosticado passa, em algum ponto dos primeiros meses, por um período em que se pergunta se é autista o bastante. Se você se virou tantos anos sem ninguém perceber. Se você consegue trabalhar, ir ao supermercado, ter relações. Se as suas dificuldades não são pequenas demais para o que o nome carrega. Essa dúvida é tão comum que vale registrar de antemão. Ela quase nunca é sinal de que o diagnóstico está errado. Ela é, em geral, sinal de quanto a camuflagem operou durante a vida, Hull, Mandy, Lai e colegas descrevem isso operacionalmente, e do quanto a voz interna ainda usa, sem perceber, o vocabulário pelo qual foi avaliada na infância. Ela desaparece, lentamente, à medida que o reconhecimento se sustenta no cotidiano.

Sobre expectativas

O que não posso prometer

Não posso prometer pacificação em três meses, e desconfio de quem promete. Os primeiros meses depois do diagnóstico tendem a ter dias bons e dias estranhos, semanas em que tudo parece encaixar e semanas em que a fadiga volta com força. Há quem tenha uma fase de leitura intensa, livros, perfis no Instagram, podcasts, e há quem precise ficar em silêncio com o assunto por um tempo. As duas reações são legítimas. O que costuma não dar certo é forçar uma "transformação pessoal" baseada no diagnóstico, com prazos e metas. O sistema nervoso que está se reconhecendo agora não pediu cronograma de evolução. Ele pediu chão.

O que posso afirmar, a partir de muitos anos vendo esse processo, é que a reorganização cotidiana costuma acontecer mesmo quando a pessoa não está fazendo nada propositalmente em busca dela. Pequenas escolhas mudam, algumas conversas vão acontecendo sem agenda fixa, alguns espaços ficam mais habitáveis. Em algum momento entre o sexto e o décimo segundo mês, é comum a pessoa olhar para trás e perceber que a casa está diferente. Mais silenciosa em alguns horários, com agenda menos cheia, com algumas pessoas mais próximas e algumas mais distantes. Não é projeto. É decantação.

Próximas leituras

Para quem está sentindo o cansaço que aparece poucas semanas depois do laudo, o verbete sobre burnout autista no modelo de Raymaker ajuda a separar o que é decantação do que é colapso por sobrecarga acumulada. Para acompanhar, em ritmo de leitura clínica, a reorganização biográfica que normalmente segue por vários meses, a trilha da revisão biográfica encadeia esse trabalho. Se o assunto começou a ficar mais denso na conversa com o parceiro, vale a leitura sobre tradução relacional como prática do casal.

Se você considera começar acompanhamento clínico nesta fase, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia pela USP.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).