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Larissa Caramaschi

Carta para quem acabou de se reconhecer

Quando o diagnóstico chega tarde

Se você está lendo isto pouco depois de receber um laudo de autismo nível 1 de suporte na vida adulta, é provável que a frase que mais ronda sua cabeça nos últimos dias seja simples e estranha ao mesmo tempo. Eu sempre fui assim. Não é descoberta de algo novo. É o contrário disso. É o nome chegando muito depois da coisa.

O que costuma chegar junto com o laudo

Alívio, raiva e cansaço, quase no mesmo dia

A primeira coisa que a maioria das pessoas relata no consultório quando o laudo é recente é alívio. Um alívio um pouco assustado, porque ele dura pouco. Dura o tempo de telefonar para a irmã, ou de fechar a porta do banheiro depois do trabalho e respirar fundo. Ali, naquele intervalo curto, o laudo organiza coisas que estavam soltas há trinta anos. A festa de aniversário em que você se trancou no quarto e ninguém entendeu por quê. O emprego em que pediu demissão de três meses em três meses porque a luz fluorescente da sala derrubava você até quarta-feira. A frase "você é difícil", repetida em tantas vozes diferentes que virou uma espécie de fundo musical.

Depois do alívio, quase sempre, vem uma raiva difícil de endereçar. Não é raiva de uma pessoa específica, embora possa aparecer disfarçada de raiva da mãe, do médico que não percebeu, do colega de classe que zoou no recreio. É raiva do tempo. É a constatação retroativa de que muita coisa que custou caro talvez tivesse custado menos se alguém tivesse nomeado isto antes. E junto com a raiva chega o cansaço, não o cansaço do dia, o cansaço de quem percebe agora, em corpo inteiro, o esforço que vinha sustentando há décadas sem saber que estava sustentando.

Esse cansaço tem nome na literatura. Dora Raymaker e colegas, em um estudo de 2020 que ficou de referência, descreveram o que chamam de burnout autista, um colapso por sobrecarga acumulada, diferente da depressão e diferente do esgotamento profissional clássico. Vem de anos em que o sistema nervoso operou em modo de compensação contínua, sustentando uma versão de si que cabia em ambientes desenhados para outro tipo de cérebro. Quando o laudo chega, esse esforço fica visível pela primeira vez. Muita gente relata, semanas depois do diagnóstico, uma fadiga que parece desproporcional. Não é. É o sistema dizendo, agora que você sabe, que vinha pagando uma conta cuja moeda você nem identificava.

O trabalho de releitura

Reler a própria vida sem reescrevê-la com tinta nova

Nas primeiras semanas, a memória trabalha sozinha. Você está tomando café e lembra de repente daquele estágio no terceiro período da faculdade, e percebe que o que sentia não era timidez, era saturação. Você está dirigindo e a cena da escola de natação aos sete anos volta inteira, com o som da piscina dentro do ouvido, e você entende por que detestou aquilo a vida toda. Essa revisão biográfica é um dos primeiros movimentos clínicos depois do diagnóstico tardio, e ela acontece queira ou não. Não é trabalho que se possa adiar. O que se pode é dar forma a ele.

Há uma armadilha aqui, e vale dizer dela cedo. A tentação é reescrever toda a biografia com a tinta nova do diagnóstico, e passar a explicar pela neurodivergência cada conflito antigo, cada relação que terminou mal, cada decisão profissional estranha. Honestamente, parte dessas coisas se explica de fato pela lente que acabou de chegar. Outra parte, não. Você brigou com seu pai porque ele era difícil; você terminou aquele namoro porque a pessoa não te respeitava; você saiu daquele emprego porque o salário era baixo. Confundir o que era neurodivergência com o que era da vida, e o que era da vida com o que era neurodivergência, empobrece a leitura nos dois sentidos. A revisão biográfica útil é a que distingue, devagar, que parte da história se reorganiza sob o novo nome e que parte segue valendo do jeito que sempre foi.

Hull, Petrides, Mandy e Lai descreveram, em uma sequência de estudos a partir de 2017, o conjunto de estratégias que muitos adultos autistas sustentam para parecer neurotípicos, ensaios mentais antes de uma reunião, supressão de movimentos autorregulatórios, imitação consciente de gestos e tons, esforço identitário para se sentir parte do grupo. O instrumento que eles desenvolveram, o CAT-Q, separa essas operações em três processos com nomes próximos mas operações diferentes. O ponto clínico, para você que está lendo isto agora, não é entrar no detalhe técnico do questionário. É reconhecer, talvez pela primeira vez de fora, que aquilo que você chamava de "ser esforçada" ou "se virar nos trinta" tinha custo metabólico real. Não era força de vontade. Era operação contínua de um sistema nervoso traduzindo, em tempo real, uma língua que ele entendia em outra que precisava entregar.

Um luto sem velório

Sobre o luto que ninguém vê de fora

É um luto estranho porque ninguém morreu. As pessoas continuam vivas, o trabalho continua, o casamento continua, a casa continua. E ainda assim algo se reorganiza por dentro com o vocabulário e o ritmo de uma perda. Há uma versão de você mesma que você cuidou de manter de pé durante anos, em parte porque foi essa versão que cabia no mundo em que você nasceu, e essa versão começa, devagar, a ficar mais frouxa. Não some. Fica mais frouxa. E nesse afrouxamento aparecem perguntas difíceis de responder. Quais gostos eram meus mesmo. Quais amizades eu sustentei por gostar, e quais eu sustentei por não saber dizer não. Por que eu chorava na adolescência sem conseguir explicar.

Esse trabalho de luto pelo tempo é o mais subestimado da literatura clínica sobre diagnóstico tardio. Quando a pessoa chega com ele para a sessão, frequentemente está envergonhada de estar sentindo o que sente. Acha que deveria estar celebrando o autoconhecimento, que tantas pessoas falam em ter gostado do laudo, que parece pouco generoso ficar triste. Eu digo, com alguma frequência, que esses dois movimentos não se excluem. É possível estar aliviada e estar de luto no mesmo mês. É possível estar grata pela palavra que chegou e estar cansada da palavra que demorou tanto a chegar. Não há ordem correta para essas reações, e elas não substituem uma à outra. Elas convivem.

O cuidado com a família ao redor merece um parágrafo à parte. Mãe, pai, irmão, cônjuge, filho adulto, cada um vai receber a notícia em um tempo diferente. Algumas pessoas próximas se reorganizam rápido, ficam aliviadas com você, passam a entender cenas que não tinham entendido. Outras resistem. Algumas insistem que é modismo, que todo mundo agora se acha autista, que você sempre se virou bem. Essa resistência costuma doer mais do que a pessoa que diagnostica espera, porque ela acrescenta uma camada de reconhecimento adiado ao reconhecimento que demorou tanto a chegar de você para você. Não há resposta universal para isso. Há, sim, um conselho que vale: você não precisa convencer ninguém em três meses. O tempo da família, em diagnóstico tardio, costuma ser mais longo do que o seu, e tudo bem.

Como costuma começar o trabalho

O que costuma aparecer nas primeiras sessões

A pessoa que chega ao consultório com um laudo recente, em geral, não chega pedindo terapia para o autismo. Chega pedindo terapia para algo prático, um casamento que está estranho, uma decisão profissional travada, uma ansiedade que piorou nas últimas semanas. O autismo aparece como pano de fundo, e o trabalho clínico nas primeiras sessões é fazer o pano de fundo virar contexto operacional. Não significa falar sobre autismo o tempo todo. Significa, no caso a caso, que começamos a ler o problema concreto que a pessoa trouxe à luz do que sabemos agora sobre o sistema nervoso dela.

Algumas conversas aparecem cedo, quase sempre. A primeira é sobre a agenda da semana, onde estão os blocos sensoriais mais pesados, quais reuniões cobram mais camuflagem, onde no calendário existem janelas reais de descompressão e onde só parece existir. A segunda é sobre dormir, comer e barulho — sem essas três coisas em algum patamar minimamente negociado, qualquer trabalho terapêutico mais profundo fica parado. A terceira é a conversa sobre quem na vida da pessoa sabe do diagnóstico, em que termos, e quanto isso vem custando energia para administrar. Algumas pessoas chegam já tendo contado para muita gente, e o que pesa é a quantidade de explicação. Outras chegam tendo contado para ninguém, e o que pesa é o segredo.

Em paralelo, no ritmo da pessoa, a revisão biográfica vai acontecendo. Não em ordem cronológica, não como projeto fechado. Em pedaços. Uma sessão fica em torno de uma cena de infância que voltou de surpresa. Outra fica em torno de uma decisão profissional recente que agora se entende melhor. Outra fica em torno do casamento, do parceiro, da forma como os dois se desencontravam sem saber. O trabalho não tem prazo fixo, e qualquer profissional honesto vai dizer isso desde a primeira sessão. Em geral, os primeiros seis meses são de reorganização interna, nomear, mapear, distinguir o que era da vida do que era da configuração. Depois disso, o trabalho tende a se concentrar nos arranjos práticos: como negociar ambientes, como reparar conflitos com quem está perto, como construir uma rotina que respeite o que agora se sabe sobre o próprio funcionamento.

Uma coisa que costumo dizer no fim das primeiras sessões, e que repito aqui porque ela parece ajudar: o diagnóstico tardio não é a chegada. É a aquisição de uma palavra que faltava. A vida continua, com mais ou menos a mesma forma que tinha antes; o que muda é o que se entende dela. Esse entendimento, cuidado com calma e sem pressa de transformar tudo em projeto de auto-aperfeiçoamento, costuma reorganizar pequenas coisas importantes ao longo de muitos meses. Não é alívio rápido. Mas é alívio sustentável, e isso, em geral, é o que a pessoa está procurando quando senta na poltrona pela primeira vez segurando uma pasta com o laudo dentro.

Para seguir lendo no mesmo eixo

O verbete camuflagem (modelo CAT-Q de Hull, Mandy e Lai) decompõe, em três processos, o esforço sustentado que muitos adultos só percebem depois do laudo. A página da trilha do luto do diagnóstico acompanha, em ritmo de leitura clínica, o que descrevo aqui em tom de carta. E para quem está nas primeiras conversas com o parceiro depois do diagnóstico, vale o texto sobre como diferenças invisíveis viraram, ao longo dos anos, conflito conjugal.

Se este texto descreve o que você está atravessando agora e você considera começar acompanhamento clínico, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia pela USP, com vinte e seis anos de prática clínica em adultos.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).