Conceito-chave clínico
Camuflagem (modelo CAT-Q de Hull, Mandy e Lai)
Aos 39 anos, Patrícia leva 47 minutos para entrar no apartamento depois que estaciona. Sai do carro, vai ao mercado da esquina comprar um abacate que não está faltando, volta ao carro, mexe no celular, sobe a escada e desce. Está recuperando energia entre a versão dela que vive em consultoria estratégica e a versão dela que vive em casa, porque oito horas em open space exigiram um conjunto de operações de leitura social, supressão sensorial e modulação expressiva que ela não consegue desligar instantaneamente. O nome técnico para a soma dessas operações é camuflagem, e o modelo conceitual mais usado em literatura empírica é o de Laura Hull, William Mandy e Meng-Chuan Lai, articulado entre 2017 e 2019 em dois artigos no Journal of Autism and Developmental Disorders. O modelo decompõe a camuflagem em três processos com nomes próximos mas operações distintas: compensação, masking e assimilação. Os três acontecem ao mesmo tempo, com cargas diferentes em contextos diferentes, e os três custam recursos cognitivos finitos.
A leitura clínica útil não é a que pede "parar de camuflar" como projeto totalizante. A camuflagem não é, por si, "esconder o autismo", é um custo metabólico contínuo pago para manter funcional uma identidade socialmente legível, e a clínica útil é a que distingue, caso a caso, que parte ainda serve e que parte cobra juros impagáveis.
Os três processos do modelo CAT-Q
Compensação, masking, assimilação, o que cada um faz
Compensação é o conjunto de estratégias ativas que a pessoa autista emprega para parecer engajada socialmente apesar das diferenças no processamento da interação. São operações conscientes, ensaios mentais antes de uma reunião, scripts internalizados, observação imitativa fina de colegas considerados socialmente competentes, contato visual cronometrado para parecer atento. Hull e colegas descreveram, no estudo qualitativo de 2017 ("Putting on My Best Normal"), a sensação recorrente que aparece em relatos de adultos autistas: é como fazer cálculo mental social o tempo todo, em paralelo à conversa. Essa carga é o que torna o esforço de aparentar fluência distinto do esforço social comum, não é só prestar atenção, é executar uma operação adicional.
Masking opera em sentido contrário: enquanto compensação adiciona comportamentos neurotípicos, masking suprime comportamentos autísticos visíveis. Stimming retraído, contato visual atípico contido, fala literal arredondada em tempo real, padrões sensoriais expressos engolidos. É a face mais reconhecida da camuflagem, e a que aparece primeiro no vocabulário da pessoa autista adulta diagnosticada tarde. Na literatura empírica, Hull, Mandy, Lai e equipe descreveram em 2019 o masking como o processo mais custoso entre os três, com as correlações mais altas com ansiedade e depressão. Sarah Cassidy, Louise Bradley, Rebecca Shaw e Simon Baron-Cohen estenderam o achado em artigos de 2018 e 2020 mostrando associação significativa entre camuflagem sustentada e ideação suicida em adultos autistas, em magnitude que ultrapassa o que ansiedade e depressão explicam isoladamente.
Assimilação é o processo mais identitariamente custoso dos três. Não é adicionar comportamento nem suprimir comportamento, é tentar se reorganizar por dentro para que a operação social pareça natural. Adaptar continuamente os próprios interesses para se ajustar aos do grupo, sufocar preferências autênticas, sentir-se um impostor social sustentado por anos, perder a noção de quais gostos são genuínos e quais foram absorvidos para caber. Amy Pearson e Kieran Rose descreveram a assimilação, em revisão de 2021, como o vetor mais ligado à "erosão identitária" relatada por adultos autistas em diagnóstico tardio. Meng-Chuan Lai, Michael Lombardo, Amber Ruigrok e equipe haviam mostrado em 2017 que mulheres autistas tendem a apresentar escores mais altos especificamente nessa dimensão do CAT-Q, o que ajuda a explicar a frequência da crise identitária pós-diagnóstico nesse grupo.
O custo metabólico da camuflagem sustentada
O que se paga quando a operação dura décadas
A camuflagem social é compatível com vida adulta funcional — milhões de adultos autistas no Brasil sustentam algum nível de camuflagem em trabalho, em rede social, em vida pública, e sustentar nem sempre é problema. O ponto clínico não é eliminá-la como projeto totalizante (Pearson e Rose, 2021), mas reconhecer os custos quando começam a passar do orçamento metabólico disponível. Dora Raymaker, Alan Teo e Nicole Steckler, com equipe da Universidade do Estado do Oregon, descreveram operacionalmente o burnout autístico em estudo qualitativo publicado em 2020 na Autism in Adulthood exaustão crônica, perda de habilidades antes acessíveis (fala, organização, autocuidado, autonomia funcional), sensibilidade sensorial aumentada, e ligaram a etiologia à camuflagem sustentada além do que o sistema nervoso comportaria. Não é o burnout neurotípico do excesso de carga horária. É o burnout do sistema que sustentou compensação contínua durante anos.
A erosão identitária é outro custo subestimado. Quando a camuflagem opera por décadas, especialmente em mulheres autistas adultas em diagnóstico tardio, a pergunta "quem sou eu sem a camuflagem" chega com vazio operacional real. Pearson e Rose descrevem este achado como trabalho identitário que pede meses a anos, não conversa de sessão. Há, ainda, o que Hull e colegas (2017) chamam de exaustão diferencial, o adulto autista nível 1 que volta de uma reunião de seis horas não está cansado pela reunião, está cansado pela camuflagem sustentada durante a reunião, e essa exaustão é diagnóstica. E há a comorbidade psiquiátrica: Eva Lever e Hilde Geurts (2016) e Meng-Chuan Lai e equipe (2019) compõem evidência consistente de que ansiedade, depressão e, em mulheres, transtornos alimentares são comorbidades sistemáticas em adultos com camuflagem sustentada. O tratamento exclusivo da comorbidade, sem reconhecimento da camuflagem subjacente, costuma produzir resposta clínica parcial.
O que a clínica faz com a camuflagem
Tornar consciente e elegível, não eliminar
O Instagram autista anglófono adotou, entre 2020 e 2024, o "unmasking" como bandeira: parar de camuflar como objetivo central de cuidado. A bandeira é compreensível e, em alguma medida, necessária, legitimar autoexpressão autêntica funciona como antídoto a décadas de patologização. O consultório clínico, no entanto, opera com leitura mais matizada. Pearson e Rose (2021) e Eilidh Cage e Zoe Troxell-Whitman (2019) sustentam empiricamente o que a prática sustenta clinicamente: parte da camuflagem é estratégia adaptativa funcional em contextos onde o custo de não camuflar excede o benefício. O objetivo clínico útil é distinguir, caso a caso e contexto a contexto, qual camuflagem ainda serve (eficiência social mínima para sustentar emprego, vínculos importantes, segurança pública) e qual camuflagem está cobrando juros impagáveis — camuflagem em ambientes íntimos onde a autenticidade seria sustentável, camuflagem que produz exaustão acima do tolerável, camuflagem que isola da própria identidade.
O trabalho clínico, então, é tornar a camuflagem consciente e elegível, e dar à pessoa autista adulta o repertório para negociar, em cada contexto da vida adulta, quanta camuflagem está disposta a sustentar pelo benefício que ela ainda produz, e quanta camuflagem pode ser suspensa sem perda funcional significativa. Em consultório, esse trabalho costuma se sustentar em meses ou anos, e quase sempre passa por um período de luto pela energia gasta antes de a operação ter sido nomeada.
Próximo passo
Verbetes vizinhos no glossário
O verbete masking detalha a subdimensão de supressão de comportamentos visíveis, que é a face da camuflagem que aparece primeiro no vocabulário público. O verbete burnout autista (Raymaker, 2020) descreve o custo clínico mais documentado da camuflagem sustentada.
Se este verbete descreve a paisagem da sua vida adulta e você considera iniciar acompanhamento psicológico, Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018). Psicóloga clínica e terapeuta familiar, mestre em Psicologia (USP), Inscrição CRP em atualização.
Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).