Caso composto hipotético, construído a partir de configurações recorrentes em consultório e na literatura, sem identificação de qualquer atendimento real. Sigilo profissional preservado conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Adulto autista nível 1, na faixa dos 38 anos, diagnóstico confirmado aos 35 depois de o filho mais velho ter sido identificado dois anos antes. Casado há nove anos com parceira neurotípica, ambos profissionais qualificados em áreas técnicas distintas. Queixa principal trazida na primeira sessão, dele: minha esposa diz que estou cada vez mais distante; estou exausto de ser quem ela precisa que eu seja. Queixa principal dela, na mesma sessão: ele se desliga de mim depois do trabalho; eu fico esperando o jantar para ter conversa de verdade e o que vem é ele no celular ou em silêncio.
A leitura clínica organiza a cena em três eixos, ativando três dos quatro pilares. No eixo sensorial (pilar 2), o trabalho dele em ambiente corporativo de open space, sob iluminação fluorescente sustentada e ruído de fundo constante, consome reserva sensorial completa até as 18h; quando chega em casa, não há reserva metabólica para conversa síncrona de qualidade afetiva alta. No eixo de tradução relacional (pilar 1), o "estar presente" que ela pede tem definição neurotípica, e ela está lendo a retração dele como recusa afetiva, quando se trata de retração regulatória. No eixo de contrato explícito (pilar 3), o casal nunca formalizou que existem janelas de fadiga sensorial sustentada que tornam certas conversas inviáveis em certos horários, e que isso não é falta de amor, é fisiologia.
O trabalho clínico, ao longo de quatro meses, desenhou janela de descompressão pactuada das 19h às 20h30, formato de "conversa importante" deslocado para domingo à tarde com pauta combinada na sexta, e protocolo de gesto simbólico (uma xícara de chá deixada no escritório dele às 20h) que ela reconhece como cuidado ativo dele com a rotina de regulação. As brigas semanais sobre "você não está presente" diminuíram. As conversas profundas, quando aconteceram, ganharam densidade, porque os dois estavam, agora, fisicamente disponíveis para elas. O casal não virou casal neurotípico. Tornou-se, com mais clareza, o casal que de fato é.
Sigilo profissional preservado. Caso composto, não-identificável.