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Larissa Caramaschi

Artigos, camuflagem (masking)

Camuflagem (masking), três aspectos, um custo identitário contínuo

Camuflagem no adulto autista nível 1 não é esconder o autismo. É o conjunto de estratégias, cognitivas, comunicacionais e sensoriais, que a pessoa desenvolveu, em geral desde a infância, para parecer menos autista em ambientes desenhados para outro tipo de cérebro. Hull, Petrides e Mandy (2017) consolidaram o construto em três dimensões, compensação, mascaramento e assimilação, mensuráveis pelo CAT-Q.

O bloco temático sustenta uma tese clínica matizada, parte do que a pessoa construiu como camuflagem ainda serve para sustentar trabalho, vínculo e ambiente, e parte cobra juros impagáveis em saúde mental. A sessão útil distingue, no caso a caso, o que ainda compõe repertório adaptativo e o que já produz exaustão, burnout autista (Raymaker et al., 2020) e, em situações graves, ideação suicida (Cassidy et al., 2018).

Tese do bloco

Camuflagem é construto mensurável, não metáfora

Antes de 2017, camuflagem autística aparecia como descrição clínica em depoimentos qualitativos. Hull e colaboradores, ao desenvolverem o CAT-Q (Camouflaging Autistic Traits Questionnaire), deram operacionalidade ao construto. As três dimensões mostraram boa consistência interna e replicam em análises fatoriais subsequentes (Hull et al., 2019, 2024). No Brasil, Mendes e colaboradores (2025), em estudo com cerca de quatrocentos participantes, encontraram modelo trifatorial com bom ajuste e diferenças significativas de média por gênero, mulheres autistas com escores totais e de mascaramento mais altos que homens autistas.

A consequência clínica dessa operacionalização é direta. A sessão pode trabalhar não com a ideia genérica de mascarar, mas com perguntas específicas, em que situações você compensa, em que situações você esconde, em que situações você se assimila ao grupo a ponto de não saber mais o que você mesmo gosta. Cada dimensão tem implicações diferentes em saúde mental, e merece tratamento clínico próprio.

Lentes teóricas dominantes

Quatro corpora que sustentam o bloco

  • Modelo CAT-Q de três dimensões

    Hull, Petrides e Mandy (2017) consolidaram o construto de camuflagem como uso de estratégias para parecer menos autista. As três dimensões, compensação, mascaramento e assimilação, são estáveis em análise fatorial e replicam em populações de diferentes idiomas (Hull et al., 2019, 2024).

  • Camuflagem feminina como vetor de subdiagnóstico

    Lai (2015, 2019), Bargiela, Steward e Mandy (2016) e Hull qualitativo (2017) mostram que mulheres autistas reportam níveis mais altos de camuflagem do que homens em TEA nível 1, com correlação direta com diagnóstico tardio e diagnósticos prévios de ansiedade, depressão e TPB.

  • Custo identitário e saúde mental

    Cassidy et al. (2018) acenderam alerta ao relacionar camuflagem com ideação suicida. Raymaker et al. (2020) descreveram burnout autista. Hull et al. (2024) confirmaram a associação longitudinal entre mascaramento sustentado e colapso funcional.

  • Crítica matizada ao unmasking

    Pearson e Rose (2021), Cage e Troxell-Whitman (2019) e Raymaker et al. (2025) recusam o desmascaramento como projeto totalizante. A leitura clínica matizada distingue, no caso a caso, que parte da camuflagem ainda serve e que parte cobra juros impagáveis.

Núcleo conceitual do bloco

Quatro conceitos que organizam a leitura clínica

Compensação, mascaramento e assimilação, as três dimensões em separado

Compensação é o uso ativo de estratégias cognitivas para contornar dificuldades sociais, ensaiar falas antes de uma reunião, decorar roteiros de pequena conversa, estudar regras sociais como quem estuda gramática. Mascaramento é a supressão ativa de sinais autísticos, forçar contato visual, controlar stims, suprimir o tópico de interesse para não parecer obcecado. Assimilação é a adaptação ao grupo, copiar estilo de fala, gestos, humor de quem está em volta, de modo que outra pessoa, depois de uma hora de conversa, descreveria você de forma muito parecida com a forma como descreveria o grupo.

Cage e colaboradores (2025) mostraram que as três dimensões não adoecem do mesmo jeito. Compensação elevada se associa mais fortemente a ansiedade social, mascaramento se associa mais a sintomas depressivos e à sensação de ser falso, e assimilação tende a aparecer ligada à confusão identitária, a pergunta o que eu realmente gosto, separada do que eu aprendi a gostar para caber. Em pacientes brasileiros, Mendes e colaboradores (2025) replicaram esse padrão, mascaramento mais correlacionado com BDI-II, compensação mais correlacionada com BAI.

Camuflagem feminina como vetor de subdiagnóstico estrutural

Hull e colaboradores (2019) reuniram dados de mais de trezentos adultos autistas e encontraram, em mulheres, escores significativamente mais altos nas três dimensões. Bargiela, Steward e Mandy (2016) acrescentaram, em estudo qualitativo, que mulheres autistas relatam mascaramento desde a infância, com estratégias deliberadas de imitação de colegas, observação de personagens femininas em ficção e construção de scripts sociais elaborados. A consequência clínica está bem documentada, diagnóstico em média mais de uma década depois do que o de homens com perfil parecido, em geral depois de uma fila de diagnósticos prévios, ansiedade, depressão, TPB, transtorno alimentar.

No Brasil, a revisão de Almeida e Pereira (2025) descreve essa trajetória com clareza, e Belisário Jr. e colaboradores (2024), em ambulatório universitário de São Paulo, registraram consistência interna do CAT-Q traduzido em alfa de Cronbach acima de 0,80, com replicação aproximada da estrutura trifatorial. O instrumento, em pt-BR, ainda é predominantemente de pesquisa, não há normas brasileiras estratificadas por idade e gênero até 2026.

Burnout autista, ideação suicida e o alerta de Cassidy (2018)

Cassidy e colaboradores (2018), em amostra de adultos autistas, encontraram associação entre alta camuflagem e ideação suicida ao longo da vida. O mecanismo proposto é o de incongruência identitária sustentada, viver, por anos, performando uma versão que não corresponde à experiência interna, produz desesperança mesmo quando a vida externa parece adequada. Moseley e colaboradores (2024) confirmaram o achado em amostra mais recente, com tentativas de suicídio mais comuns em quem relatava camuflagem desde a infância.

Raymaker e colaboradores (2020) descreveram burnout autista como estado de exaustão física, emocional e sensorial, com perda de habilidades antes disponíveis e aumento de sensibilidade sensorial, após períodos longos de exigência social sem suporte. Hull e colaboradores (2024), em estudo longitudinal com mais de trezentos adultos, mostraram que mascaramento e compensação no baseline previam intensidade de burnout autista em doze meses, com efeito mais forte em mulheres em ambientes de alta demanda interpessoal, educação, saúde, atendimento ao público.

Peças deste bloco que tocam ideação suicida citam explicitamente o Centro de Valorização da Vida (CVV 188, ligação gratuita, 24h). O portal não oferece atendimento de urgência.

Unmasking, leitura matizada em vez de projeto totalizante

Pearson e Rose (2021) e Cage e Troxell-Whitman (2019) recusam o desmascaramento como meta única do trabalho clínico. Raymaker e colaboradores (2025), em estudo longitudinal com adultos recém-diagnosticados, acompanharam dezoito meses de desmascaramento gradual e encontraram dois movimentos simultâneos. Aumento de autoestima e sensação de autenticidade, e, ao mesmo tempo, aumento transitório de conflitos familiares e profissionais nos primeiros seis a doze meses, com vulnerabilidade social mais alta. O desmascaramento total não é recomendação clínica, é decisão pessoal informada, calibrada contexto a contexto.

Em muitos contextos profissionais, manter alguma compensação é o que permite ao adulto autista preservar emprego, vínculos e renda. O trabalho clínico não é remover camuflagem indiscriminadamente, é distinguir, com a pessoa, em que situações a camuflagem ainda cumpre função adaptativa e em que situações ela produz custo identitário insustentável. Botha e Frost (2024) acrescentam um eixo adicional para pessoas LGBTQIA+ autistas, camuflagem em camadas, autística e de identidade, com risco aumentado de ideação suicida quando as duas se somam.

Vinheta clínica composta

Quarenta e dois anos, gestora sênior, choro silencioso no carro

Caso composto hipotético baseado em padrões clínicos típicos. Sigilo profissional preservado.

Ela é descrita por todos os colegas como impecável. Reuniões, apresentações, redes de relacionamento, performance externa irretocável. Há um ano e meio começou a chorar dentro do carro entre o trabalho e a casa, todos os dias. Não em casa, não no trabalho, apenas naqueles vinte e três minutos no carro. Diz que não entende, que nada está dando errado, que talvez seja cansaço.

O CAT-Q traduzido aplicado em sessão devolve escores totais e de mascaramento muito altos. A conversa que se segue não trata o choro como sintoma a eliminar, trata como descompressão. Vinte e três minutos por dia, no único intervalo entre dois ambientes de alta demanda, são o lugar em que a camuflagem sustentada finalmente cede. A questão clínica não é fazer o choro parar, é construir, com ela, mais janelas de descompressão durante o dia, e investigar, devagar, se há um laudo de TEA nível 1 esperando, do outro lado do volante.

Leituras companheiras

Cinco textos que aprofundam o bloco

Cada peça abaixo é um texto autônomo. Camuflagem feminina e vida profissional, leitura matizada do unmasking, diagnóstico tardio em mulheres adultas e sobrecarga sensorial no trabalho compõem o eixo principal do subnicho prioritário.

Continuidade editorial

Próximos passos editoriais

Camuflagem e autoestima caminham juntas. O bloco temático sobre autoestima e autoconhecimento trabalha a reconstrução identitária de quem viveu décadas em camuflagem sustentada.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).