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Larissa Caramaschi

Cena típica P-CONF-09 · padrão recorrente em consultório · casais 50 a 65 anos

Quando os filhos saem de casa, e o casal precisa redescobrir a gramática a dois

Esta cena pertence à última transição estrutural do ciclo de vida familiar antes da terceira idade, aquela que a literatura sistêmica clássica de Monica McGoldrick e Betty Carter chama de fase pós-parental, em que os filhos saem de casa e o casal precisa reconstruir, por dentro, a configuração relacional que sustentou as duas décadas anteriores. Ela aparece em consultório com frequência crescente no Brasil em casais entre cinquenta e cinco e sessenta e cinco anos em que pelo menos um dos cônjuges foi diagnosticado, frequentemente em idade adulta tardia, com autismo nível 1 de suporte, ou ainda está em processo de avaliação. A queixa que abre essas primeiras sessões raramente é grande. É discreta, é cansada, é de quem repetiu durante meses, dentro de casa, a frase a gente não conversa mais sem que ninguém respondesse, porque os filhos não estavam mais lá para preencher o espaço da fala.

Quatro movimentos clínicos sobre essa cena

A cena

Casados há vinte e nove anos. Dois filhos adultos, o mais velho mudou para outro estado para um programa de pós-graduação, a mais nova foi para o intercâmbio que tinha sonhado por anos e ficou em definitivo no exterior depois de uma oferta de trabalho. Os dois saíram da casa em intervalo de oito meses, e nesse intervalo curto, sem que ninguém percebesse de fato no momento em que estava acontecendo, a casa perdeu o ritmo que mantinha. O ritmo, aqui, é palavra precisa. Não é metáfora. Por vinte anos, a sequência das tardes foi estruturada por escola, deveres, transporte, jantar com pelo menos uma das crianças, conversa sobre o dia delas, leitura de boletim, organização de mochila. Essa estrutura, que a parceira NT vivenciava como rotina cansativa, era também, para o cônjuge autista, o arcabouço externo que dava previsibilidade ao tempo doméstico, e que permitia a ele estar presente sem precisar produzir, ele próprio, a coordenação ativa do tempo a dois.

No primeiro mês depois que a filha mais nova partiu, o casal não notou bem o que estava acontecendo. Por uns trinta dias, sobreviveu de inércia. No segundo mês, começaram a aparecer os jantares em silêncio. Não silêncio agressivo, silêncio sem matéria. Os dois sentavam à mesa, comiam o que tinha sido feito, e descobriam, em segundos, que não tinham mais sobre o que falar de imediato. Sem a triagem espontânea de assunto que as crianças traziam, e sem o repertório de cuidado parental que organizava a conversa, ficavam dois adultos diante um do outro sem o andaime externo que mediava a presença. Ela começou a propor passeios no final de semana. Ele aceitou nos primeiros sábados e, no terceiro, pediu para ficar em casa. Ela leu como afastamento. Ele leu como exigência de produzir, sozinho com ela, um tipo de espontaneidade conjugal que ele nunca tinha precisado produzir antes, porque os filhos sempre tinham estado lá entre os dois.

No quarto mês, ela chorou no consultório individual. No sexto mês, marcaram terapia de casal. Quando chegaram, ela disse, com voz cansada, eu não sei se ele me ama. Ele disse, depois de longo silêncio, eu nunca soube fazer isso sem as crianças no meio.

A leitura tradicional

A leitura tradicional da fase pós-parental, em terapia sistêmica clássica, é uma das mais bem mapeadas do ciclo de vida familiar. Carter e McGoldrick descrevem com precisão o luto da função parental, a necessidade de redescobrir interesses individuais, a renegociação de papéis depois que a função cuidadora deixa de organizar a vida cotidiana, e a oportunidade de revitalização do vínculo conjugal quando ambos os cônjuges aproveitam a janela para investir em projetos partilhados. A literatura é sólida nessa descrição, e oferece intervenções razoáveis para parte significativa da população atendida nessa fase. O problema clínico aparece quando essa moldura é aplicada, sem ajuste, a um casal em que o cônjuge introvertido ou recolhido é uma pessoa autista adulta nível 1 de suporte, porque o que parece resistência a investir no vínculo a dois é, frequentemente, dificuldade real e funcional de organizar tempo conjugal sem a estrutura externa que os filhos forneciam.

A leitura tradicional tende a ler o cônjuge que se recolhe como alguém com déficit de iniciativa relacional, e a aconselhar a parceira a se reinventar com hobbies, viagens, clubes, projetos comunitários. Quando o cônjuge recolhido não acompanha, a literatura clássica oferece duas saídas, ou ela investe em projetos solo e aceita a vida menos conjugal, ou o casal entra em processo de separação amigável. As duas saídas existem e são legítimas em alguns casos. O que essa leitura não consegue ver é uma terceira possibilidade. Ela não consegue ver que, para o cônjuge autista adulto que sustentou vinte anos de paternidade ou maternidade dentro da estrutura previsível que filhos pequenos impõem, a saída deles da casa não é luto do papel parental, é colapso do andaime que tornava a presença conjugal sustentável em primeiro lugar. Sem entender isso, a leitura clássica tende a patologizar o recolhimento ou a empurrar a separação onde, na verdade, havia tradução pendente.

O que a dupla empatia reorganiza

A tese da dupla empatia de Damian Milton, publicada em 2012 na revista Disability and Society (doi:10.1080/09687599.2012.710008), reorganiza a leitura dessa fase de transição em três direções centrais. A primeira é nomear o que estava sustentando o vínculo na fase anterior. Por vinte anos, o que mantinha o casal funcional não era apenas afeto compartilhado, era também uma estrutura externa que regulava implícita e silenciosamente a previsibilidade do dia, dos finais de semana, das férias, das refeições. Essa estrutura beneficiava ambos, mas beneficiava de modo categorialmente diferente o cônjuge autista, para quem o andaime externo reduzia a carga cognitiva de coordenar tempo livre, e a parceira NT, para quem o mesmo andaime cobrava esforço de gestão, mas oferecia narrativa cotidiana de cuidado. Quando o andaime cai, os dois perdem coisas diferentes, e essa assimetria precisa ser nomeada para que a conversa possa avançar.

A segunda direção que a dupla empatia reorganiza é a categoria do recolhimento. Catherine Crompton e equipe, em estudo publicado em 2020 na revista Autism (doi:10.1177/1362361320919286), mostraram empiricamente que o ruído comunicacional no encontro neurodivergente é fenômeno de interface, não de déficit individual. Aplicada à cena do ninho vazio, essa leitura indica que o recolhimento do cônjuge autista não é falta de amor, é resposta legítima a uma demanda nova, a demanda de produzir, sozinhos, a coordenação ativa de tempo conjugal sem o repertório externo dos filhos. Laura Crane e equipe, em estudo publicado em 2018 na revista Autism (doi:10.1177/1362361318772246), descrevem como adultos autistas com perfil sensorial diferenciado tendem a precisar de mais tempo de descompressão em ambientes que demandam disponibilidade conjugal sustentada, e como mudanças estruturais no ambiente doméstico aumentam a carga sensorial em vez de diminuir. A terceira direção, e talvez a mais delicada, é o reconhecimento do risco psíquico real desse período. Sarah Cassidy e equipe, em estudo publicado em 2022 na revista Molecular Autism (doi:10.1186/s13229-022-00505-6), documentaram marcadores de risco aumentado de sofrimento psíquico grave em adultos autistas em fases de transição estrutural sem suporte clínico adequado, o que torna o trabalho com casais nesse momento, longe de ser cosmético, parte de uma clínica que cuida também de prevenção em saúde mental adulta.

Como o casal sai dessa cena na próxima vez

O trabalho clínico nessa configuração não tenta substituir o andaime perdido por convocação heroica ao casal a se reinventar. Tenta, em vez disso, ajudar a desenhar um novo andaime, menos pesado, menos centrado em terceiros, mais explicitamente compartilhado. Em consultório, com tempo, eles construíram juntos algumas estruturas mínimas. A primeira foi recuperar a previsibilidade do jantar, agora descrito não como obrigação domestica mas como ritual de presença. Combinaram que jantariam juntos quatro vezes por semana, no mesmo horário aproximado, e que duas dessas noites teriam algum assunto-âncora pré-combinado, por exemplo o filme que estão assistindo ou a viagem que estão planejando para o ano seguinte. As outras duas podem ser jantar em silêncio compartilhado, e silêncio compartilhado deixou de ser, nessa fase, sinal de vínculo morto, virou modalidade legítima de estar juntos.

A segunda estrutura foi a redescoberta do fim de semana. Em vez de obrigar a si mesmos a inventar passeios espontâneos toda semana, o que cobrava demais do conjuge autista, definiram um esqueleto leve, sábado de manhã para tarefas individuais cada um na sua, sábado à tarde para algum projeto compartilhado de execução clara, domingo de manhã sem demanda, domingo à tarde para uma caminhada curta no parque mais próximo, sempre o mesmo. O ritual da caminhada repetida, que para um casal jovem poderia parecer monótono, virou para este casal um andaime simples que permite presença sem coordenação ativa contínua. A terceira estrutura, mais delicada, foi a conversa sobre os filhos. Eles aprenderam que falar das crianças, na fase em que as crianças estão construindo a vida adulta delas longe, era território de aproximação afetiva profundo para os dois. Em vez de evitar o assunto para não chorar, passaram a ter uma vez por semana, geralmente no domingo à noite, uma conversa de quarenta minutos sobre as duas. Não é nostalgia, é exercício de presença conjunta na história compartilhada. Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018), Inscrição CRP em atualização.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

Leituras vizinhas no portal

Onde esta cena conversa com o restante do método

A peça conceitual sobre tradução relacional descreve o método que sustenta o trabalho de reconstrução do andaime. A peça teórica de base, em dupla empatia no consultório de casal, reorganiza o recolhimento como resposta funcional à transição. Quando a redescoberta do ritmo a dois passa por cenas de desencontro, a peça sobre reparação pós-conflito descreve os passos clínicos da retomada respeitosa.