Ir para o conteúdo principal
Pular para o conteúdo
Larissa Caramaschi

Cena típica P-CONF-10 · disclosure tardio em vínculo em formação

O novo cônjuge que descobre o autismo do parceiro um ano depois

Esta cena tem se tornado mais frequente em consultório à medida que a avaliação diagnóstica de autismo nível 1 de suporte em adultos brasileiros começa, finalmente, a chegar a populações que por décadas passaram por anos de psicoterapia sem que ninguém houvesse oferecido essa lente. A configuração que aparece é a seguinte. Um relacionamento novo, na casa de doze a dezoito meses, ainda em fase de formação do vínculo, em que o cônjuge autista recebeu o laudo formal alguns meses antes de o casal se conhecer, e por razões que dizem respeito à própria fase de elaboração subjetiva dele, não contou para a parceira no início do namoro. A descoberta acontece, em geral, em algum momento entre o sexto e o décimo segundo mês, por motivo prosaico, um documento aberto no celular, uma conversa com a irmã dele que escapou, uma menção casual em sessão de terapia individual que ela cruzou depois com algum comentário dele. O instante em que a parceira sabe é também o instante em que ela começa, em silêncio, a revisar para trás todas as semanas que viveu com ele.

Quatro movimentos clínicos sobre essa cena

A cena

Ela tem trinta e quatro anos, é jornalista, vinha de um casamento de oito anos que terminou amigavelmente dois anos antes. Ele tem trinta e nove anos, é engenheiro de software, recebeu o laudo de TEA nível 1 de suporte oito meses antes de o casal se conhecer, depois de quase dois anos de avaliação multiprofissional para esclarecer um quadro que tinha passado, durante toda a vida adulta, sendo descrito como ansiedade generalizada, depressão recorrente e timidez patológica. Quando se conheceram em um curso de fotografia, em um sábado de manhã, ela achou o jeito reservado dele bonito e raro, gostou do fato de ele responder mensagens com cuidado e demora, gostou da consistência de hábitos. Os primeiros oito meses foram, para os parâmetros dela, dos relacionamentos mais calmos que já viveu. Sem altos e baixos. Sem ciúme. Sem ambiguidade. Com algumas coisas estranhas que ela atribuiu, na época, ao temperamento dele.

No nono mês, em uma noite de quarta-feira, ela pegou o celular dele emprestado para mostrar uma foto, abriu, por acidente, uma aba ainda ativa que tinha o laudo em PDF. Leu três linhas antes de fechar. Não disse nada naquela noite. Esperou o domingo seguinte para perguntar. Quando perguntou, ele empalideceu, ficou em silêncio por uns dois minutos, depois disse, com voz baixa, ia te contar quando soubesse o que essa palavra significava para mim. Ela não brigou no momento. Não chorou. Apenas saiu cedo no dia seguinte, foi para o trabalho, e durante toda a semana seguinte começou a revisitar mentalmente, com lentidão metódica, cada cena do namoro nos últimos doze meses. A vez em que ele recusou uma festa de aniversário do irmão dela. As respostas curtas em momentos íntimos. O jeito de organizar a comida no prato sempre na mesma sequência. A demora para responder mensagens em algumas tardes. Cada cena ganhou, agora, uma segunda camada de leitura, e ela não sabia, ainda, o que fazer com essa nova camada. A pergunta que apareceu, com força crescente ao longo da semana, foi quem é o homem com quem eu estou namorando, e essa pergunta tinha duas versões simultâneas, uma de quem reconhece o parceiro, outra de quem teme tê-lo conhecido pouco demais.

A leitura tradicional

A leitura clássica de uma situação assim, em terapia de casal e em literatura de disclosure, tende a se organizar em torno do eixo da quebra de confiança. Ela contaria, em consultório individual, que descobriu uma informação relevante sobre o parceiro depois de quase um ano, e a terapeuta organizaria a sessão em torno da exploração do que essa quebra de confiança significa para ela, do que ela faz com o sentimento de ter sido excluída de uma informação importante, e da decisão sobre continuar ou interromper o vínculo. A literatura aqui tem mérito, ela ajuda a parceira a separar o que sente sobre o autismo dele do que sente sobre a forma como soube. As duas coisas são distintas, e a confusão entre elas costuma ser fonte de sofrimento adicional. Pessoas honestas com seu trabalho clínico, nessa fase, fazem essa separação com cuidado.

Onde a leitura tradicional fica curta é em dois pontos. Primeiro, ela tende a tratar a omissão como falta moral simétrica em qualquer omissão de um ano em qualquer relacionamento. Segundo, ela tende a oferecer, à parceira NT, uma narrativa em que ela precisa decidir agora se aceita ou não namorar uma pessoa autista, como se aceitar ou recusar fossem operações simples disponíveis para alguém que ainda não terminou de processar a informação. As duas curtezas saem caras. A primeira não considera o que é, para uma pessoa autista adulta recém-laudada, contar para uma parceria nova ainda em formação que recebeu, no ano anterior, uma reformulação inteira da própria biografia. A segunda não considera que aceitar ou não aceitar, no momento em que ela ainda está revisando para trás cada cena do último ano, é decisão que sequer cabe ser pedida com pressa. Disclosure tardio, em vínculo em formação, exige da clínica uma moldura mais cuidadosa do que a moldura padrão de quebra de confiança.

O que a dupla empatia reorganiza

A tese da dupla empatia de Damian Milton, publicada em 2012 na revista Disability and Society (doi:10.1080/09687599.2012.710008), aplicada a essa cena específica, organiza o trabalho clínico em três direções simultâneas. A primeira é reconhecer que a revisão retrospectiva que a parceira faz das últimas semanas é, ela mesma, fenômeno legítimo e necessário, e não sinal de instabilidade emocional. Quando alguém descobre, depois de um ano, que o parceiro pertence a uma categoria neurológica que ela não tinha como saber sem ser informada, é razoável que o cérebro dela passe algumas semanas reorganizando o arquivo das memórias compartilhadas para integrar essa nova informação. O que ela está fazendo, ao revisitar cenas, não é desconfiar, é traduzir. Está fazendo, em silêncio, o trabalho que Catherine Crompton e equipe, em estudo de 2020 publicado em Autism (doi:10.1177/1362361320919286), descreveram em termos experimentais como ajuste de modelo interno do outro em encontro entre tipos neurológicos diferentes.

A segunda direção é descrever o lado dele. O cônjuge autista que recebeu o laudo no ano anterior está, frequentemente, em estado fenomenológico que Brett Heasman e Alex Gillespie, em estudo publicado em 2018 na revista Autism (doi:10.1177/1362361317708287), descrevem em termos qualitativos como reorganização biográfica em curso, fase em que a pessoa ainda está integrando, internamente, o que significa pertencer a essa configuração depois de décadas operando com outros nomes para o próprio mal-estar. Contar essa informação a uma parceira nova, em vínculo de quatro ou cinco meses, exige da pessoa autista um trabalho de tradução que pressupõe vocabulário interno consolidado, e esse vocabulário, em geral, ainda está em formação no primeiro ano pós-laudo. A omissão, lida sob essa luz, não é falta moral simétrica, é dificuldade real e funcional de produzir, em fase inicial de namoro, narrativa coerente sobre uma reorganização identitária que ele próprio ainda não consegue narrar bem nem para si mesmo. A terceira direção, mais delicada, é o reconhecimento de que essa cena pertence a um vínculo em formação, não a um vínculo consolidado, e o trabalho clínico aqui não é repactuar um casamento, é decidir se há matéria para construir um, e em que condições, e com que linguagem.

Como o casal sai dessa cena na próxima vez

O trabalho clínico nessa configuração não pressupõe nem continuação nem ruptura. Pressupõe, antes de qualquer decisão, tempo. Em consultório, no início, eles passaram quatro sessões só descrevendo o que cada um tinha vivido no último ano sem saber. Ela descreveu cada cena que tinha revisitado em silêncio, com a leitura nova que cada uma agora pedia. Ele descreveu, pela primeira vez em voz alta para alguém que não fosse seu terapeuta individual, o que tinha sido receber o laudo, como tinha pensado em contar a ela várias vezes, em que momentos tinha quase contado, em que momentos tinha decidido esperar mais, e como esse esperar virou, sem que ele percebesse, omissão mais longa do que ele tinha planejado. Esse trabalho de descrição não é cosmético. Ele restitui a ambos o sentimento de estar dentro da mesma história, e não em duas histórias paralelas que se encontraram por acidente em um curso de fotografia.

Depois das primeiras sessões de descrição, eles começaram a desenhar, juntos, o que faria sentido para o vínculo no segundo ano. Combinaram que ela poderia perguntar, sempre que quisesse, qualquer coisa sobre o autismo dele, e que ele tentaria responder mesmo quando a resposta fosse não sei ainda. Combinaram que ele teria, em paralelo, espaço para continuar o próprio processo de elaboração biográfica, em terapia individual, sem precisar trazer para o vínculo cada nova compreensão à medida que aparecesse. Combinaram que decisões maiores, sobre morar juntos, sobre apresentar à família dela, sobre falar abertamente para amigos, ficariam suspensas por seis meses, e que ao final desses seis meses os dois voltariam, em sessão, à conversa sobre o que estava sendo construído. Ela disse, em uma das últimas sessões antes da pausa, eu não sei se vou ficar, e ele disse, sem defensividade, eu também não sei. E foi exatamente essa simetria de não saber que abriu, pela primeira vez, a possibilidade de talvez ficar, sem que esse ficar fosse decisão tomada sob pressão. Larissa Caramaschi atende presencialmente em Goiânia (Setor Marista) e online (Resolução CFP nº 11/2018), Inscrição CRP em atualização.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

Leituras vizinhas no portal

Onde esta cena conversa com o restante do método

A peça conceitual sobre tradução relacional descreve o método que sustenta a fase de descrição compartilhada do primeiro ano. A peça teórica de base, em dupla empatia no consultório de casal, reorganiza a revisão retrospectiva como ajuste de modelo interno, não como desconfiança. Quando a conversa sobre disclosure passa por momentos de desencontro, a peça sobre reparação pós-conflito descreve os passos clínicos da retomada respeitosa.