Ir para o conteúdo principal
Pular para o conteúdo
Larissa Caramaschi

Instrumento clínico

Escala · Hull, Mandy, Lai (2019)

CAT-Q (Camouflaging Autistic Traits Questionnaire)

O CAT-Q é a escala canônica de camuflagem social em adultos autistas. Foi desenvolvida em duas etapas pela equipe de Laura Hull, William Mandy e Meng-Chuan Lai no University College London e University of Cambridge, primeiro em estudo qualitativo seminal publicado em 2017 no Journal of Autism and Developmental Disorders sob o título "Putting on My Best Normal", depois em validação psicométrica publicada na mesma revista em 2019. O instrumento contém 25 itens em escala Likert de 7 pontos, e decompõe a camuflagem em três fatores empiricamente sustentados, compensação, masking e assimilação, que operacionalizam em sessão a leitura clínica do que cada adulto autista nível 1 de suporte específico está sustentando no cotidiano.

A escala não é instrumento diagnóstico de autismo. É instrumento descritivo de camuflagem em pessoa autista já identificada, e tem uso clínico mais consistente como facilitador de conversa em sessão do que como medida psicométrica fechada. Em maio de 2026, o instrumento ainda não tem validação psicométrica brasileira publicada e revisada por pares, situação que impõe cuidados específicos de uso no consultório local.

Definição curta

Em uma frase

O CAT-Q é uma escala de autorrelato com 25 itens em Likert de 7 pontos, desenvolvida por Hull, Mandy, Lai e equipe entre 2017 e 2019, que mede camuflagem social em adultos autistas em três fatores empiricamente sustentados, compensação, masking e assimilação. Em maio de 2026, ainda não tem validação psicométrica brasileira publicada.

Leitura longa, três fatores da escala

O que o CAT-Q mede em cada uma das suas dimensões

A análise fatorial publicada por Hull e colegas em 2019 sustentou três fatores latentes na escala, com cargas consistentes em amostra de 354 adultos autistas e replicação interna em coortes subsequentes. Os três fatores não são exclusivos entre si, operam simultaneamente em cada interação social, e o perfil de subescore que cada paciente apresenta organiza a leitura clínica do caso de modo distinto. Em sessão, vale apresentar os fatores em linguagem clínica antes de aplicar a escala, para que o resultado entre como mapa interpretável e não como número opaco.

  • Compensação (Compensation)

    9 itens

    O fator compensação captura estratégias ativas que a pessoa autista emprega para parecer socialmente engajada apesar das diferenças no processamento da interação. Itens típicos incluem afirmações como "ensaio mentalmente o que vou dizer antes de uma conversa importante", "uso scripts internalizados em situações sociais novas", "observo colegas socialmente competentes e imito padrões". A compensação é, em rigor, operação cognitiva adicional que sobrepõe a comunicação espontânea, e na escala correlaciona com fadiga reportada após interação social prolongada.

  • Masking (Masking)

    8 itens

    O fator masking captura supressão ativa de comportamentos autísticos visíveis. Itens incluem "controlo expressões faciais para parecer mais expressivo", "evito stimming em público", "modulo meu tom de voz para soar mais natural". Hull e colegas (2019) documentaram que masking, dos três fatores, apresenta as correlações mais altas com ansiedade e depressão em adultos autistas. Cassidy e colegas (2018) estenderam o achado mostrando associação significativa entre masking sustentado e ideação suicida, em magnitude que ultrapassa o que ansiedade e depressão isoladamente explicariam.

  • Assimilação (Assimilation)

    8 itens

    O fator assimilação captura tentativa de se reorganizar identitariamente para que a operação social pareça natural. Itens incluem "sinto-me como um impostor em interações sociais", "tenho dificuldade de saber quais dos meus interesses são genuinamente meus", "perdi noção de quem eu seria sem a camuflagem". É o fator mais identitariamente custoso, e o que mais correlaciona com erosão identitária descrita por adultos autistas em diagnóstico tardio, particularmente mulheres. Lai e colegas (2017) mostraram que mulheres autistas apresentam escores mais altos especificamente neste fator, o que ajuda a explicar a frequência da crise identitária pós-diagnóstico nesse grupo.

Como aparece na clínica, cuidados de uso

Quatro cuidados clínicos centrais

Status no Brasil em maio de 2026. Não há validação psicométrica brasileira publicada e revisada por pares do CAT-Q. Existem traduções em circulação, com qualidade variável. O instrumento é facilitador de conversa clínica, não medida psicométrica brasileira fechada. Aplique com essa ressalva e documente no prontuário.

  • Versão de pesquisa, não versão clínica validada no Brasil

    O CAT-Q em português brasileiro ainda não tem validação psicométrica brasileira publicada e revisada por pares (status em maio de 2026). Existem traduções em circulação, algumas com cuidado terminológico, outras sem. Em consultório, o instrumento serve como facilitador de conversa clínica e mapa de subdimensões da camuflagem que aparecem no caso, mas não pode ser usado isoladamente como instrumento diagnóstico nem como medida de gravidade. O resultado entra no prontuário como dado complementar ao quadro clínico, não como medida psicométrica brasileira validada.

  • Pontuação alta não é diagnóstico de autismo

    Adultos não-autistas que vivem em ambientes socialmente exigentes (consultores, atendentes de serviço, profissionais de saúde mental) podem apresentar pontuação não desprezível em algumas subdimensões do CAT-Q, particularmente compensação. A escala foi desenvolvida em amostra autista e não tem sensibilidade nem especificidade publicada para uso diagnóstico em população geral. Em consultório, a interpretação clínica integra o resultado com outros dados (RAADS-R, AQ-10, entrevista clínica estruturada, ADOS-2 quando indicado) e nunca substitui o juízo do clínico.

  • Risco psiquiátrico associado pede manejo específico

    Cassidy, Bradley, Shaw e Baron-Cohen documentaram em 2018 (Molecular Autism, 9, 42) que camuflagem sustentada associa-se a ideação suicida em adultos autistas em magnitude clinicamente relevante. Quando o escore total do CAT-Q vem alto, particularmente no fator masking, cabe avaliação ativa de risco psiquiátrico em sessão, com instrumentos próprios e com manejo específico. A escala identifica a camuflagem, mas o seguimento clínico do risco é responsabilidade do terapeuta no caso individual.

  • A escala não mede o custo subjetivo da camuflagem

    O CAT-Q mede com quanta frequência a pessoa camufla e em quais subdimensões. Não mede o quanto isso custa subjetivamente em cada contexto, nem se a camuflagem ainda serve à pessoa ou se passou a cobrar juros impagáveis. Essa leitura é clínica e exige conversa com o paciente, em sessão, sobre os contextos específicos em que cada subdimensão opera e o saldo metabólico que cada um produz. O instrumento é mapa inicial, não medida final.

Ver também

Verbetes vizinhos no glossário

CAT-Q operacionaliza a leitura clínica do verbete Camuflagem, que oferece o quadro conceitual mais amplo. Masking descreve uma das três subdimensões medidas pela escala. Burnout autista descreve o desfecho clínico mais documentado da camuflagem sustentada acima do orçamento metabólico, em particular quando o escore total do CAT-Q se mantém alto por anos sem intervenção.

Citações deste texto

Literatura que sustenta este verbete

  • Hull, L., Mandy, W., Lai, M.-C., Baron-Cohen, S., Allison, C., Smith, P., & Petrides, K. V. (2019). Development and Validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q). Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(3), 819-833. Validação psicométrica original da escala.
  • Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M.-C., & Mandy, W. (2017). "Putting on My Best Normal": Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519-2534. Estudo qualitativo seminal que organizou os três fatores.
  • Cassidy, S., Bradley, L., Shaw, R., & Baron-Cohen, S. (2018). Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, 9, 42. Associação entre camuflagem sustentada e ideação suicida em adultos autistas.

Próximo passo de leitura

Continuar pelo glossário

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).