Da correção ao reconhecimento de variação
A clínica patologizante opera com pressuposto, frequentemente implícito, de que o funcionamento autista é desvio a ser corrigido em direção ao padrão neurotípico. A neuroafirmação desfaz esse pressuposto sem negar sofrimento. O autismo passa a ser lido como variação neurocognitiva legítima, e o sofrimento que aparece em consultório é redistribuído entre componente intrínseco (sobrecarga sensorial, exigência cognitiva da camuflagem, exaustão social cumulativa) e componente social (minorização, expectativa neurotípica não negociada, ambientes desenhados para outro cérebro). Chapman e Botha (2023) sustentam que essa redistribuição não é gesto retórico, ela muda o que o terapeuta escuta, o que ele interpreta como sintoma e o que ele propõe como intervenção.