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Larissa Caramaschi

Casais neurodivergentes · Cenas típicas

O almoço de domingo na família dela, que para ele dura horas demais

Quase todo casal neurodivergente em que um dos dois cresceu numa família grande do interior chega ao consultório, em algum momento do trabalho, com uma versão desta cena. Ela conta com afeto. Ele conta com fadiga. As duas versões falam do mesmo domingo, e do mesmo almoço, e do mesmo terraço, e por algum motivo nenhum dos dois reconhece a história do outro.

A cena

É domingo, perto de uma da tarde, e a casa da mãe dela está cheia desde as onze. São quatorze pessoas, contando crianças, em três gerações, distribuídas em dois ambientes que se abrem um para o outro, a sala onde a televisão passa o jogo com volume médio e a cozinha onde duas tias finalizam a comida em conversa sobreposta, com a panela de pressão chiando ao fundo e o exaustor ligado. Os sobrinhos pequenos correm da varanda para o corredor e voltam, dois deles gritando uma brincadeira que tem regra incompreensível para qualquer adulto que tente acompanhar de longe. O cachorro da casa late de tempos em tempos no quintal, sem motivo evidente, e o portão eletrônico abre uma vez a cada vinte minutos para a chegada de mais um parente. Ela está feliz. Ele está num canto do sofá, em silêncio, com o olhar parado num ponto do chão.

Quando alguém puxa conversa com ele, ele responde com frase curta, educada, sem ironia, mas sem extensão. A prima dela comenta, com aquele tom de quem repete piada antiga, que o cunhado é sempre o mais quieto da turma. Ele sorri, faz que sim com a cabeça, e a conversa segue sem ele. À mesa, ele come pouco, e quando ela passa perto e pergunta se está tudo bem, ele diz que sim com voz neutra e os olhos pedindo, sem palavras, que ela não insista naquele instante. Ela volta para a conversa com as tias. Mais tarde, no carro, no caminho de volta, ela diz que ele foi antissocial de novo, que a família dela vai começar a achar que ele não gosta de ninguém, que ela já está ficando sem desculpa para dar. Ele olha pela janela, tenta formular a resposta, sente que tudo o que dispõe para dizer é insuficiente, e fica em silêncio mais uma vez. O silêncio dele, no carro, é a continuação do silêncio dele no sofá, e os dois silêncios têm a mesma causa, mas só ele sabe.

A leitura tradicional

A leitura clínica que circulou ao longo de décadas na terapia de casal lê esse domingo como problema de habilidade social, ou como sinal de desinteresse afetivo pela família da parceira. Em versões mais bondosas, é timidez, é introversão, é falta de prática. Em versões menos bondosas, é falta de esforço, é recusa em se integrar, é arrogância. O encaminhamento tradicional vai sugerir que ele se prepare para o almoço, ensaie tópicos, force conversa em três pessoas que ele não vê há tempo, demonstre interesse, ofereça ajuda na cozinha. A premissa é que a participação social num ambiente coletivo grande é, em última instância, um gesto de afeto, e que a ausência de gesto comunica ausência de afeto.

Em casal neurodivergente, essa leitura encalha por uma razão que costuma demorar a entrar em consultório, porque ele próprio, durante anos, não teve vocabulário para nomear o que acontecia dentro dele naquele domingo. O ambiente do almoço grande tem, em qualquer medida razoável, uma carga sensorial cumulativa que adultos autistas processam com custo metabólico significativamente maior do que adultos neurotípicos da mesma família. São dois ambientes acústicos que se sobrepõem, e o córtex auditivo dele, sem filtro pragmático para a fala da tia versus o áudio do jogo versus o grito dos sobrinhos, fica processando os três simultaneamente, sem hierarquia. Ao final de três horas, o que parece comportamento desagradável é descida controlada de um sistema sensorial em sobrecarga real, que ele consegue manter razoavelmente porque está com ela, porque gosta dela, porque sabe que esse almoço é importante. O que ele não consegue, depois de três horas, é também conversar.

O que a dupla empatia reorganiza

Milton, em 2012, no Disability & Society, propôs ler o desencontro social entre adultos autistas e neurotípicos como falha bidirecional de gramática, em que cada lado opera uma norma internalizada, e a presunção de que existe uma norma neutra é, ela mesma, parte do problema. Aplicada à cena do almoço de domingo, a moldura faz uma redistribuição honesta da leitura. Não há, da janela da família dela, gesto explícito de hostilidade, todos foram simpáticos, ninguém maltratou ninguém. Da janela dele, também não há intenção de hostilidade, ele veio porque ela pediu, ficou três horas porque sabia que ela queria. O que há entre as duas janelas é uma norma implícita de participação social que a família dela compartilha sem nunca ter precisado nomear, e que o sistema nervoso dele não consegue cumprir sem entrar em sobrecarga depois de duas horas.

Crompton e colegas, em 2020, na Frontiers in Psychology, mostraram que cadeias homogêneas de adultos autistas e cadeias homogêneas de adultos neurotípicos preservam informação de forma comparável, enquanto cadeias mistas perdem. O achado é metodologicamente sóbrio, mas conceitualmente largo. O custo comunicacional do almoço grande, para o parceiro autista, não é falha individual dele em comparação com a tia dela, é custo de interface entre dois estilos de processamento social que se encontram num mesmo terraço. Heasman e Gillespie, em 2018, noAutism, descreveram em etnografia de longa duração que adultos autistas relatam, com vocabulário próprio, exatamente a sensação de carregar um esforço comunicacional desproporcional em ambientes mistos, esforço que cai significativamente em encontros menores ou entre pares. Ele não é antissocial. Ele é alguém cujo sistema nervoso, naquela quantidade de estímulo simultâneo, gasta em duas horas o que os primos dela gastam em sete.

A peça clínica que muda no consultório, depois que a moldura entra, é a conversa sobre dosagem sensorial conjugada, sobre janelas de saída, sobre divisão honesta de demanda social na vida do casal. Não é o adulto autista que precisa ser consertado para caber no almoço, é o casal que precisa construir, em parceria, uma forma de comparecer aos eventos dela e aos eventos dele que sustente a relação dos dois com as próprias famílias sem que um dos dois pague custo metabólico que se acumula em forma de burnout no mês seguinte.

Como o casal sai dessa cena na próxima vez

O próximo almoço é renegociado na semana anterior. Os dois combinam, em conversa de cinco minutos no sábado à noite, que ele chega às doze e meia, almoça, fica uma hora e quarenta depois do café, e pega o carro para casa por volta das três e meia, sozinho, enquanto ela fica mais um pouco com a mãe e pega um Uber depois. O combinado tem texto explícito, é dito em voz alta, e ela leva para a família, sem culpa, a versão curta, ele tem compromisso à tarde. Não é receita, é convite a uma gramática diferente. A gramática reconhece que a presença dele de três horas custa o equivalente a um dia inteiro de trabalho dele, e que essa presença, dosada, é mais sustentável que a presença forçada de quatro horas seguida de quatro dias em que ele mal sai do quarto.

O combinado tem texto explícito, é dito em voz alta, e ela leva para a família, sem culpa, a versão curta, ele tem compromisso à tarde. Em alguns domingos seguintes, a versão vai precisar ser revisada, porque a tia vai perguntar com insistência, porque o jogo vai se estender, porque um primo vai chegar exatamente quando ele estaria saindo. O casal aprende, em sessão, a tratar essas pequenas variações como negociáveis em bloco, em vez de cada exceção virar nova conversa. Ela também passa, por sua vez, a contar para si mesma uma história diferente do silêncio dele no sofá. O silêncio deixa de ser sinal de antissocial e vira sinal de alguém que está, no momento, segurando a presença com cuidado de quem sabe que essa presença tem custo. A releitura, que parece pequena no papel, é o que sustenta o vínculo na semana seguinte.

É preciso dizer, com honestidade clínica, o que essa leitura não resolve. Quando a família dela é hostil ao genro de modo ativo, quando há crítica continuada em corredor, quando há piadas que ele percebe e ela não, a moldura sensorial não dá conta sozinha, e o consultório precisa abrir espaço para a conversa difícil sobre lealdade, sobre proteção, sobre o custo conjugal de comparecer a um ambiente em que um dos dois é tratado como exterior. E quando ele, por trás do silêncio, está em depressão, ou está usando o silêncio como retaliação passiva por outro conflito não nomeado, a lente da dupla empatia também não basta, e o trabalho clínico precisa pegar esses fios separadamente, em sessão própria, com vocabulário próprio, sem que a moldura sensorial seja chamada para cobrir o que a moldura sensorial não cobre.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

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