A cena
É o décimo segundo aniversário de casamento, uma quinta-feira de outubro, dia útil normal. Ela acorda, escova os dentes, passa a mão na lateral do braço dele em movimento que pretende significar lembrança da data, e desce para fazer o café. Ele acorda alguns minutos depois, vai trabalhar de home office na sala, e fica nas reuniões dele até o meio da tarde. Não fala nada sobre o dia. Por volta das cinco, ela manda mensagem perguntando se ele topa jantar fora, ele diz que sim com emoji de polegar para cima, e ela escolhe o restaurante. À noite, jantam, ele pergunta sobre o trabalho dela, ela responde de modo curto, ele percebe que algo está estranho mas não consegue identificar o quê, pergunta uma vez se ela está cansada, ela diz que sim. Voltam para casa. Antes de dormir, ela diz, com voz contida que quase não treme, parabéns pelos doze anos, e fica de costas para ele.
Ele entende, ali, o que faltou, e o entendimento chega como choque retroativo. Ele lembrava da data desde a véspera, tinha comprado mentalmente um cartão, tinha cogitado três restaurantes possíveis, e em algum momento durante o sono o plano dele se diluiu, e quando acordou, ele simplesmente começou o dia. Não houve esquecimento ativo. Houve falha de transição entre o pensamento da véspera e a ação do dia, em alguém cuja função executiva opera com latência maior em decisão social não roteirizada. Ele responderia, instantaneamente, se ela tivesse dito de manhã, eu queria jantar fora hoje porque é nosso aniversário, eu queria que você marcasse o restaurante, eu queria um cartão escrito à mão. Mas ela não disse, e ele não captou o sinal implícito do deveria saber sozinho, e agora os dois estão deitados em silêncio numa quinta-feira que era para ter sido outra coisa.
A leitura tradicional
A leitura clínica padrão da terapia de casal lê essa cena pela gramática do que importa para um e não para o outro. Se ele não se mobilizou para a data, é porque a data não importa para ele, e se a data não importa para ele, então o casamento não importa para ele do mesmo jeito que importa para ela. O encaminhamento clínico tradicional vai sugerir que o casal negocie o que cada um considera importante, que ele faça esforço de reconhecer datas simbólicas, que ela faça esforço de aceitar que cada pessoa expressa afeto à sua maneira. A premissa subjacente é que houve falha de prioridade afetiva, e que essa falha, devidamente nomeada, pode ser corrigida com maturidade.
Em casal em que um dos dois é adulto autista nível 1 de suporte, essa leitura encalha porque ela confunde duas coisas que precisam, em consultório, ficar separadas. Importância afetiva e captação de sinal social implícito são dimensões cognitivas distintas. Ele pode reverenciar profundamente a data, pensar nela durante semanas, sentir o vínculo dos doze anos como peça central da identidade dele, e ainda assim chegar na manhã da quinta-feira sem o roteiro pronto, porque o sistema dele de captação social não emite, sozinho, o aviso hoje é o dia em que se faz tal coisa. A frase a data não importou para ele, dita por ela, é frase de superfície que cobre o que realmente aconteceu, que foi falha de andaime, não falha de afeto. E aqui a leitura tradicional, por não distinguir os dois planos, tende a piorar o sedimento, porque ela passa a se sentir não amada por algo que não foi desinvestimento de amor.
O que a dupla empatia reorganiza
Milton, em 2012, na Disability & Society, propôs ler o desencontro social entre adultos autistas e neurotípicos como falha bilateral de tradução de norma implícita, em vez de déficit unilateral. Aplicada à cena do aniversário, a leitura faz três deslocamentos. O primeiro, o mais óbvio, é reconhecer que o que ela leu como ausência de amor foi, na gramática dele, ausência de protocolo. O segundo, menos óbvio, é reconhecer que ela tem razão em sentir, no corpo, a ausência que sentiu, porque a expectativa do gesto não dito é parte real do vocabulário afetivo dela, e foi parte real do vocabulário afetivo de quase toda a literatura conjugal em que ela cresceu. O terceiro deslocamento, que costuma demorar mais a chegar em sessão, é reconhecer que o roteiro do deveria saber sozinho, embora seja honesto enquanto desejo, é gramática historicamente neurotípica, e que mantê-lo como régua de medida do amor de um marido autista é régua que ela precisa ressignificar para que o casamento sustente.
Crompton e colegas, em 2020, na Frontiers in Psychology, mostraram que a transmissão de informação social em cadeias homogêneas autista a autista e neurotípica a neurotípica é comparável em qualidade, e que as cadeias mistas perdem informação. Heasman e Gillespie, em 2018, no Autism, em etnografia, mostraram que adultos autistas captam sinais em outra modalidade, valorizam outra forma de pertencimento, e relatam menos esforço quando o canal é compartilhado. A consequência no casal não é diminuir a expectativa do gesto afetivo, é traduzir o gesto afetivo de um canal para outro. O parceiro autista demonstra amor todos os dias em formas que ela talvez não tenha aprendido a contar como demonstração, como manter conta da bateria do celular dela, como saber de cor o pedido de café dela, como cuidar de tarefa logística que ela detestaria fazer sozinha. Essas micro-formas são gramática afetiva real dele, e parte do trabalho clínico é ela aprender a ouvir essa gramática como gramática afetiva, em paralelo a ele aprender a entregar gesto na gramática dela em datas simbólicas explícitas.
A peça que entra é o contrato explícito de data simbólica, que não é receita romântica, é dado de entrada relacional. Os dois sentam, em consultório ou em casa, e nomeiam, em voz alta, o que cada um precisa que o outro faça em aniversário de casamento, em aniversário pessoal, em Natal, em data importante para um e não para o outro. Ela diz, com palavras próprias, eu preciso de cartão escrito à mão, eu preciso que você marque o restaurante, eu preciso que você diga em voz alta hoje é nosso aniversário. Ele diz, com palavras próprias, eu preciso saber a data com pelo menos uma semana de antecedência, eu preciso saber o roteiro esperado, eu preciso que você não interprete a ausência de improviso como ausência de amor. Os dois conjuntos de necessidades viram, juntos, contrato explícito.
Como o casal sai dessa cena na próxima vez
No décimo terceiro aniversário, a quinta-feira começa com ele acordando antes dela, descendo, fazendo o café que ele já tinha praticado mentalmente uma semana antes, e voltando para o quarto com a xícara e com um cartão escrito à mão na noite de domingo, quando o roteiro foi combinado. O cartão tem três frases curtas, da gramática própria dele, sobre o que esses treze anos significam. Mais tarde, jantam no restaurante que ele tinha reservado na semana anterior, depois de ela dizer, em texto explícito, que esse era o jeito que ela queria comemorar. Ela sabe que o gesto dele foi roteirizado em parceria, e essa parceria não tira valor do gesto, dá outro valor a ele, porque o gesto foi sustentado por amor mais cuidado executivo, e os dois sabem, em voz alta, que essa é a equação que sustenta o casal deles.
O efeito do contrato, ao longo dos meses, é menos sobre o gesto único da data e mais sobre o sedimento de ressentimento que vinha se acumulando em silêncio. Ela percebe, retrospectivamente, que o que mais doía não era a ausência do cartão em si, era a história que ela vinha contando para si mesma sobre o que a ausência do cartão significava. Quando essa história foi reescrita em consultório, com texto explícito sobre o que ele consegue fazer espontaneamente e o que ele precisa de andaime para fazer, parte do sedimento se desfez sem nem precisar passar por gesto de reparação. Não todo. Restou um luto pequeno, que o casal hoje sabe nomear, sobre o jeito do amor espontâneo que a literatura conjugal romântica prometia e que não vai aparecer naquele formato. O luto, nomeado, libera espaço para o amor que de fato existe.
Não é receita. É convite a uma gramática nova, que vai precisar ser revisada quando a vida do casal mudar, quando o filho nascer, quando alguém adoecer, quando datas se acumularem em estações cansativas. E há limite honesto da moldura. Quando o ressentimento já se sedimentou ao longo de anos sem nomeação, quando há perda íntima em paralelo, quando a parceria afetiva já não se sustenta também em outros canais, a leitura via dupla empatia precisa ser acompanhada por outro trabalho, de luto, de reparação longa, de revisão da viabilidade do vínculo. Nem todo casamento que chega ao consultório com essa cena fica em pé só com contrato de data simbólica. Mas o contrato, quando entra, tira do caminho a falha categorial de leitura que vinha confundindo, há anos, gramática neurotípica com gramática do amor.
Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).