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Larissa Caramaschi

Casais neurodivergentes · Cenas típicas

A conversa de cabeceira que nunca acontece, e o que está debaixo dela

Em quase todo casal neurodivergente em terapia há uma conversa que precisaria acontecer todas as noites e não acontece em nenhuma. A cama está pronta, os dois deitados, a luz baixa, e ainda assim o canal de chegada noturno está fechado para os dois, por razões opostas que se encontram no mesmo silêncio.

A cena

Onze e quarenta da noite, quarta-feira. Ela sobe para o quarto dez minutos depois dele, escova os dentes, coloca o creme nas mãos, deita do lado dela da cama, e percebe, como já tinha percebido na noite anterior e na anterior, que ele já está com os fones grandes de almofada no ouvido, com os olhos fechados, respirando devagar. O som branco que ele ouve à noite é um ventilador gravado em loop, baixo, quase imperceptível para quem está fora dos fones, mas dentro dos fones cobre o ruído do refrigerador da cozinha, o eventual carro lá fora, o estalo do prédio que assenta, e principalmente, sem que ele jamais tenha dito isso em voz alta para ela, cobre o som da respiração dela, que ele ama sentir, mas cujo timbre exato ativa o córtex auditivo dele para detalhe demais, e o impede de adormecer. Ela vê os fones, sente uma pontada que já aprendeu a reconhecer, e fecha os olhos. Não diz nada.

Há cinco anos, no início do casamento, eles conversavam na cama por uma hora antes de dormir. Falavam do dia, falavam de planos, falavam de pequenos atritos, faziam reparação. Era, para ela, o momento que mais sustentava o vínculo na semana, e quando esse momento começou a desaparecer, sem aviso, sem briga, ela começou a contar para si mesma uma história sobre o casamento que tinha começado a esfriar. O diagnóstico dele, recebido há dois anos, deu nome a outras coisas mas não chegou ainda nesse canto. Ele não consegue, ainda, explicar para ela por que os fones apareceram, nem por que apareceram justo no ponto em que ela mais sente a falta da voz dele perto do ouvido. Ela, do lado dela, ainda não conseguiu nomear, sem acusação, que está triste todas as noites. As duas perdas acontecem em silêncio, lado a lado, em colchões iguais.

A leitura tradicional

A terapia de casal lê com frequência essa cena como sinal de afastamento sexual ou afetivo, como evidência de que um dos dois desinvestiu da intimidade, como pista de que há outra pessoa, ou de que há um luto inominado de fase do casamento. A intervenção tradicional, derivada de modelos de intimidade construídos em populações majoritariamente neurotípicas, vai prescrever ritual, vai pedir que os dois desliguem dispositivos antes da cama, vai propor agenda de conexão, vai sugerir que o casal volte a conversar mesmo que não tenha vontade, porque a vontade voltaria com a prática. O fundo da prescrição é uma ideia honesta, segundo a qual a intimidade adulta se constrói por exposição relacional reiterada, e que dispositivos no quarto são, em última instância, fuga.

Essa leitura encalha com força no casal neurodivergente porque ela não distingue entre fuga e regulação. O fone, para ele, não é dispositivo de distração afetiva, é prótese sensorial que viabiliza o sono, e sem o qual ele entra na cama em estado de hipervigilância acústica que pode durar duas horas, ao final das quais ele dorme exausto e acorda mal disposto no dia seguinte. Pedir que ele tire o fone, sob a moldura tradicional, é pedir que ele troque o sono dele pela intimidade dela, e essa troca, no médio prazo, não sustenta nem o sono dele nem a intimidade dela. O custo se acumula em forma de irritabilidade matinal, de queda de produtividade, de fadiga crônica, e termina por erodir, ainda mais, o vínculo que a intervenção pretendia restaurar.

O que a dupla empatia reorganiza

Milton, em 2012, na Disability & Society, propôs ler o desencontro comunicacional entre adultos autistas e neurotípicos como falha mútua de tradução, não como déficit individual. Aplicada à cena da cama, a moldura faz duas redistribuições simultâneas. A primeira é sobre o que ele está fazendo com o fone. O fone deixa de ser sinal de afastamento e vira informação sobre o sistema nervoso dele, que precisa de envelope acústico estável para descer. A segunda é sobre o que ela está sentindo no escuro. A tristeza dela deixa de ser sinal de fragilidade emocional ou de dependência conjugal e vira informação sobre como o vínculo dela se sustenta, em parte significativa, no canal verbal íntimo de voz baixa antes do sono, que era o canal que ela tinha em comum com a gramática familiar em que ela cresceu. As duas informações precisam ser ouvidas em pé de igualdade.

Crompton e colegas, em 2020, na Frontiers in Psychology, mostraram que a transmissão de informação em cadeias homogêneas autista a autista e neurotípica a neurotípica é comparável, e que as cadeias mistas perdem informação de modo significativo. Em casal, isso significa que a intimidade neurodivergente não é menos rica, ela depende de canal traduzido em duas vozes. Heasman e Gillespie, em 2018, noAutism, descreveram em etnografia que adultos autistas relatam menos esforço comunicacional entre pares e mais esforço em encontros mistos. No quarto, o esforço dele para conversar uma hora antes de dormir, sem o envelope acústico que ele precisa, é esforço duplo, e a sensação íntima de que ela queria estar em comum com ele nessa hora é honesta e legítima, mas o custo dele para entregar essa hora do jeito antigo é literalmente insustentável. A leitura do consultório é abrir os dois lados do esforço, e desenhar uma forma de chegada noturna que respeite o sistema de cada um.

A peça clínica que entra é a conversa sobre formato de intimidade, em duas vozes. Ele aprende a dizer, sem constrangimento, o que o fone faz, e por que ele apareceu, e o que aconteceria sem ele. Ela aprende a dizer, sem acusação, o que a hora antes do sono significava para ela, e o que perdeu quando ela parou. O terapeuta sustenta as duas falas até elas não competirem mais por mesmo espaço. O que segue, em vez de prescrição de ritual, é negociação de forma, e a forma pode ser muito diferente da hora antiga.

Como o casal sai dessa cena na próxima vez

A próxima vez começa fora da cama. Eles acordam combinando que a conversa íntima da semana acontece em outro lugar e outro horário, talvez no sábado de tarde, talvez no carro em viagem curta, talvez na varanda em horário em que ele ainda tem reserva sensorial. O quarto, por enquanto, continua sendo o espaço do envelope acústico dele. Os dois constroem, em paralelo, um pequeno gesto de fechamento de dia, sem fones, sem voz, talvez três minutos antes dele colocar os fones, em que ela toca a mão dele, ele toca o rosto dela, eles dizem boa noite, e ela sabe, com texto explícito que os dois revisaram em consultório, que esse gesto carrega o mesmo significado que carregava a conversa de uma hora, em densidade menor, em canal diferente, em parceria construída.

Em paralelo, a hora íntima da semana, deslocada para o sábado de tarde, ganha forma própria, e os dois descobrem, ao longo de alguns meses, que a conversa daquele formato é diferente da conversa de cabeceira que ela perdeu. Não é melhor, não é pior, é outra. A conversa ocorre com luz, com os dois descansados, com texto explícito sobre quanto tempo ela vai durar. Ela admite, sem culpa, que sente saudade do jeito antigo, e ele admite, sem defesa, que também sente saudade da hora antes de o fone aparecer. A saudade nomeada em duas vozes não desfaz a perda, mas torna o vínculo capaz de carregar a perda sem que ela contamine o sono dos dois, sete noites por semana.

Não é receita. É convite a uma gramática nova, que vai precisar ser ajustada nas semanas seguintes, e em que haverá dia em que o gesto falha e a tristeza dela volta, e ele vai precisar aprender a sustentar a tristeza dela sem tratar como ataque. E há limite honesto. Quando a perda íntima já desorganizou outras esferas, quando o casal não tem mais sexo há um ano e a conversa noturna some no mesmo período, quando há indicação de depressão em um dos dois, a moldura sensorial não basta, e o consultório precisa abrir leitura em paralelo sobre o que mais aconteceu no vínculo nesse intervalo. A peça do envelope acústico explica o fone, e a peça do envelope acústico não explica o casamento inteiro. Confundir as duas coisas é o erro clínico mais frequente dessa cena.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual. Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista requer avaliação clínica realizada por profissional qualificado. Portal segue a Resolução CFP nº 03/2007 (Publicidade Profissional) e a Resolução CFP nº 11/2018 (Atendimento online).

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